ESPORTES: Fragmentos – O Valério era destaque positivo na imprensa nacional

Por hobby ou distração, foleava minhas antigas edições da Placar, a maior revista de futebol no Brasil em todos os tempos. Deparei-me com um texto de Bruno Bittencourt, o correspondente em Belo Horizonte na década de 80, cujo título num primeiro relance eu nem reparei apesar das letras garrafais. O que me chamou mesmo a atenção era a imagem em preto e branco de uma faixa amarrada no alambrado com a frase: “EM CADA ITABIRANO, UM CORAÇÃO VALERIANO”. Por razões óbvias voltei ao texto e me perturbei de orgulho.

A reportagem da edição N° 881 de 20 de abril de 1987 faz referência a um Valério forte. “O Dragão das Minas de Ferro” estava ameaçando os velhos papões Atlético e Cruzeiro com uma receita bem simples e um time feito em casa, com itabiranos bons de bola – dos 25 atletas, 21 haviam sido formados entre nossas montanhas. Era o caso do zagueiro Badu: sua mãe era camareira na Pousada dos Pinheiros e ele foi procurar emprego lá, quando foi aconselhado pelo possível empregador, um sócio do hotel que já conhecia seu futebol, a tentar a sorte no Valério. Badu se deu bem e garantiu seus 10.000 Cruzados por mês, a média salarial do clube.

O presidente do Valério à época era Luís Miranda, que não apenas à Placar, mas a outros meios da imprensa, alardeava com orgulho que o Valério elevava mais o nome de Itabira que Carlos Drummond de Andrade e a Companha Vale do Rio Doce. Exagero? Talvez. Drummond é citado na reportagem, ainda vivo, quando desejava que o Valério trouxesse muita alegria aos seus conterrâneos. A Vale, por sua vez, era uma das maiores estatais do país e tinha interferência direta no Valério.  Segundo o estatuto do VEC, o presidente e vice-presidente do clube deveriam ser obrigatoriamente funcionários da companhia estatal.

vec
Em 1987, a Revista Placar registrou o forte Valério que causava dor de cabeça nos grandes do futebol mineiro: Atlético e Cruzeiro. Uma situação bem diferente da que se encontra atualmente o Dragão.

A torcida valeriana também é abordada na reportagem de Bittencourt, em especial a torcida infantil, adjetivada como ruidosa pelo jornalista. O momento era muito bom dentro e fora de campo, a imprensa nacional vinha destacando não apenas a qualidade do time profissional do Valério, mas também a capacidade do clube de revelar atletas e se destacar sempre positivamente nas categorias de base. Um ano antes, em 1986, o clube havia sido campeão mineiro de juniores, desbancando os gigantes da capital.

O quadro atual nem de longe lembra os tempos áureos do passado, o torcedor ainda continua a abraçar o clube e se as coisas não andam nada bem em campo é reflexo do que acontece e aconteceu fora dele. A somatória de equívocos nas últimas duas décadas transformou negativamente o clube que tanto orgulho deu ao nosso povo e ao futebol brasileiro. Tiraram do Valério a “aura de vencedor”, destacada na reportagem da Placar como a essência do clube.

Mesmo com o quadro positivo, já havia uma certa insatisfação de alguns para com a relação entre a Vale e o clube que levava seu nome. A sobrinha de Drummond, Julieta Drummond de Andrade Müller, não perdeu a oportunidade de cutucar a estatal, declarando que Itabira era uma pobre cidade rica e que o Valério era um filho pobre e rejeitado de uma mãe rica, a Vale estava mais para uma madrasta. Para além do senso comum, certamente não há apenas um responsável pela queda de prestígio do clube, são vários.

O célebre jornalista começou seu texto há quase três décadas destacando um famoso verso de Drummond sobre Itabira, usarei a mesma passagem para fazer referência do que o Valério e seus bons tempos se tornaram, não apenas para o itabirano mas para todos os amantes do futebol: “Uma fotografia na parede. Mas como dói”.

CLIQUE AQUI E LEIA OUTROS ARTIGOS DA COLUNA “ESPORTES”

Comentários

Amante do futebol, skatista há mais de uma década, entusiasta de automobilismo e apreciador de esportes em geral. Acompanha os principais eventos esportivos nacionais e internacionais, muitos deles "in loco", para absorver melhor as emoções e repassa-las com maior riqueza de detalhes.