ESPORTES: “E agora, José?”: o futuro de clubes e profissionais do interior pós-estadual

O Campeonato Mineiro 2017 nem chegou ao fim, aliás, para muitos, a competição só começa pra valer no próximo domingo, às 16 horas, quando as duas maiores forças do Estado, Atlético e Cruzeiro, começam a jogar a primeira partida da decisão. Mas, outros tantos, como no meu caso, a competição é interessante na sua totalidade, pois se o futebol é uma expressão cultural de determinado povo, o Campeonato Mineiro ocupa lugar de destaque na tradição esportiva de Minas Gerais.

Enquanto os olhos se voltam para a decisão e seus possíveis desdobramentos, profissionais dos grandes clubes mineiros vão se desdobrar durante os próximos dias para brilharem na decisão, mas independentemente do resultado estarão logo com a cabeça voltada para a dura agenda de jogos que os times terão que cumprir durante o ano. O calendário de Atlético, Cruzeiro e América está cheio e garantido até o final do ano, os recursos e o trabalho dos profissionais também. E quanto aos clubes e profissionais do interior? Qual destino aguarda fisioterapeutas, roupeiros, atletas e treinadores dessas equipes?

A dura realidade é que para a maioria desses times o ano começa em janeiro e termina antes de maio. O que é arrecadado entre cotas de TV, patrocínio e bilheteria praticamente inviabiliza a manutenção do clube no restante da temporada e, salvo raras e felizes exceções que disputam divisões inferiores, como o caso da URT, que fez mais uma grande campanha sagrando-se bicampeã do interior e ainda disputará a série D nacional, o ano chegou mesmo ao fim. O problema é que estamos no mês de abril e os contratos entre clubes e profissionais geralmente termina no final do campeonato estadual, mas as contas e as necessidades básicas de qualquer trabalhador perduram pelos outros meses.

O goleiro Juninho que já tinha jogado no Atlético anteriormente e fez um bom campeonato mineiro pela URT, havia pendurado as luvas e já estava trabalhando em uma empresa que presta serviços de transportes via aplicativo de celular. Não fosse a disputa da série D no decorrer do ano, a bola daria lugar novamente ao volante na vida do atleta e essa realidade é cada vez mais comum. O atleta joga um campeonato de alto nível enfrentando grandes clubes em estádios importantes como Mineirão ou Independência e logo tem que enfrentar o mercado de trabalho para se sustentar durante o longo período de inatividade nos gramados.

Esse problema não ocorre exclusivamente em Minas Gerais, longe disso, o movimento Bom Senso Futebol Clube, formado por ex-atletas e atletas de renome, enumera que 85% dos clubes de futebol profissional do Brasil ficam sem agenda de jogos por mais de 6 meses. O movimento ganhou grande repercussão na mídia quando os jogadores cruzaram os braços antes das partidas do Brasileiro de 2013 mostrando o descontentamento dos atletas com tais condições.

É preciso pensar em uma agenda que mantenha os clubes profissionais deste país em um maior período de atividade, dando certa exposição a essas competições para que o maravilhoso ciclo do futebol gire de forma mais adequada. Uma ação como essa traria impactos positivos para a economia das cidades, passando pela questão do emprego, lazer e identidade cultural de determinada comunidade.

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Amante do futebol, skatista há mais de uma década, entusiasta de automobilismo e apreciador de esportes em geral. Acompanha os principais eventos esportivos nacionais e internacionais, muitos deles "in loco", para absorver melhor as emoções e repassa-las com maior riqueza de detalhes.