ESPORTES: A força da várzea – O charme e a poesia do verdadeiro futebol

Quando pensamos em futebol rapidamente nos vem como referência a bola rolando em um gramado verde e regular. A chuteira colorida e os uniformes limpinhos dão uma tonalidade quase padrão ao esporte mais popular do mundo. Até o grito da torcida parece estar em plena harmonia com o espetáculo quase teatral por vezes. Mas a essência deste esporte não tem nada de formal, a grama não é importante, ela, na maioria das vezes, sequer é convidada para a festa. A cor do uniforme não importa, porque em pouco tempo será todo coberto pelo vermelho da terra. Na falta dele, um grupo sem camisa de cá, outro grupo com camisa pra lá. O campo não é muito regular e o pedaço de madeira amarrado a um arame sustenta uma das traves e serve para intimidar o juiz e tirar rapidamente suas dúvidas. Aos gritos se ouve uns projetos de Pai Nossos e Ave Marias, terminada a reza apita o corajoso arbitro e começa a peleja.

A Copa do Mundo de 2014 trouxe ao Brasil o advento das Arenas, um estádio cercado de padrões internacionais que nem de longe lembram o primeiro contato de muitos de nós com o campo de futebol. Seja para jogar uma pelada ou assistir uma importante partida do futebol amador, nossa primeira experiência com a bola foi em grande maioria com os campos de várzea, o verdadeiro celeiro de craques do futebol brasileiro. Tão charmosa e poética por natureza, a várzea é palco de momentos importantes na minha memória e na de muitos amantes do futebol. O cronista esportivo Armando Nogueira dizia que era ali numa pelada inocente que se podia sentir a pureza de uma bola. Ele tinha razão. Longe dos holofotes da grande mídia e dos salários astronômicos os “atletas” desfilavam seu talento e não raro sua falta dele. A Várzea sempre esteve mais perto das pessoas, se tornando um marco de identidade para muitas comunidades ao redor do país.

O futebol varzeano permanece fascinante e recebe até um certo espaço no Brasil atualmente. Campeonatos com patrocínio e apoio de grandes empresas e até da grande mídia nacional, com uma pequena, mas merecida divulgação, tem possibilitado ainda hoje a descoberta de grandes talentos do futebol nacional. É o caso, por exemplo, de Leandro Damião, ex-Cruzeiro que, hoje, atua no Flamengo e também jogou pela Seleção Brasileira. O atleta foi descoberto na Copa Kaiser, a principal competição de várzea do Estado de São Paulo, Elias e Ricardo Oliveira, ambos da Seleção Brasileira, também jogaram o torneio.

Em Minas Gerais, a Copa Itatiaia, promovida pela maior rádio do estado, e o Torneio Corujão, que conta com o apoio da Rede Globo Minas, são os destaques deste futebol que encanta.

Para que a bola role com emoção não tem problema com a localização. É campo no meio dos trilhos de trem, é campo em barranco, é campo em floresta e em lugares dos mais inusitados. A marcação oficial não importa e o alambrado (quando existe) é palco de cornetas que acompanham seus times do coração e ameaçam constantemente os árbitros. Os cães são mais que expectadores, muitas vezes querem participar dos jogos e também correm atrás da bola, se derem a sorte de alcança-la com seus dentes caninos fim de jogo.

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Amante do futebol, skatista há mais de uma década, entusiasta de automobilismo e apreciador de esportes em geral. Acompanha os principais eventos esportivos nacionais e internacionais, muitos deles "in loco", para absorver melhor as emoções e repassa-las com maior riqueza de detalhes.