Enquanto isso, Drummond invade a Estrada Real

Saímos de Córregos, uma beleza de distrito, e chegaríamos a Conceição do Mato Dentro nesse trajeto que propomos percorrer até Paraty, no Rio de Janeiro, ou melhor, até Lisboa, em Portugal. Mas tivemos que nos desviar em direção a Dom Joaquim, alcançar a BR-120 e partir no rumo da volta a Itabira. Fomos intimados ou convocados por um ilustre e culto zelador do caminho e deste sítio cultural, de nome Gustavo, de família vinda dos Charneca de Portugal, a reverenciar o poeta itabirano Carlos Drummond de Andrade.

O motivo é sustentado por dois fatores: seu aniversário de nascimento, que ocorre neste 31 de outubro, e a explicação de como mostrar cada detalhe dos lugares nos quais nasceram, cresceram e progrediram, também às custas da movimentação, de hospedagens e alimentação na longa viagem de Diamantina ao Porto de Paraty, as populações hoje transformadas em atrativos.

Carlos Drummond de Andrade completaria 113 anos na data do registro de nossa viagem. Assim como as atrações diamantinenses, que mostram Chica da Silva e Juscelino Kubitschek para o mundo; Serro do Frio, que abrigou muito o pessoal ligado à Família Real; os pequenos distritos que revelam as obras do Barroco de Minas Gerais, além do que veremos daqui para a frente. O personagem se constitui como principal atração itabirana, também incrustada na Estrada Real, seja pelos seus distritos ou pela influência de outras atrações voltadas para o tropeirismo. E o que hoje contribui Drummond, mesmo 28 anos depois de morto? A ele podemos anexar senão os poemas, pelo menos algumas frases que o marcaram, dentro ou fora de seus versos. E uma vida.

“Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê ” — na estrofe se aguça a história recente de Itabira, cujo vértice e bojo contribuíram para uma nova era econômica. Na história da economia se mistura o amor, objeto sempre colocado na sabatina para se discutir a relação de Drummond com a sua terra natal. Para quem quer compreender esse real sentido, basta reler isto: “Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente, nasci em Itabira”. Não seria honroso repetir a declaração para o mundo?

Quem pesquisar CDA vai notar como ele é dedicado e devoto à palavra Amor.  Em “Cem-razões do amor”, ele pintou e bordou: “Eu te amo porque te amo, não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga”. Mesmo assim, ele se torna polêmico para alguns desconfiados que tentaram e não conseguiram entender a tal fotografia na parede, ou melhor, a frase final de sua confidência: “Mas como dói!” Dói mesmo querer decifrar um poema completo. Por si só um poema tem que ser inexplicável. Ou não é um poema.

O viajante da Estrada Real pode anotar frases que valem a pena ser comidas, bebidas, engolidas diretamente da fonte dos Caminhos Drummondianos, um museu territorial a céu aberto exclusivamente itabirano. Em cada ponto de sua passagem ou marco de uma reflexão reluz um poema, atravessando a cidade de ponta a ponta. Além dos caminhos, há pistas que levam as pessoas, seja quem for, a refletir. Por exemplo, sempre propagaram a fama de “corre” muito dinheiro. Revejam um tópico interessante de nosso herói: “O cofre do banco contém apenas dinheiro. Frustrar-se-á quem pensar que nele encontrará riqueza”.

Para conter a fúria dos loucos por dinheiro, Drummond escreveu também sobre a ambição. “Necessitamos sempre de ambicionar alguma coisa que, alcançada, não nos torna sem ambição”. Mas talvez seja, de novo, o amor, seu prato predileto. “Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida”. Então, não seria melhor seguir seu conselho? Ou prezar a amizade, por que não? E ele receita: “A amizade é um meio de nos isolar da humanidade cultivando algumas pessoas”. Ou “Como as plantas a amizade não deve ser muito nem pouco regada”.

É extenso o caminho de pesquisa que o amante das letras encontrará em Drummond e, quem sabe, em Itabira. Ele, esse intelectual, o incluiria como um eterno, talvez definido pela sua própria pena castiça: “Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundos, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata”. Mesmo divagando sobre suas palavras, como disse, cabe em si, por que não recorrer à “Memória?”, um de seus poemas que termina assim: “Mas as coisas findas muito mais que lindas, essas ficarão”. Contudo, não é preciso se prender sequer a algum conselheiro, mesmo os melhores. Siga Drummond, caso queira: “Há certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer”.

Se quer saber mais sobre Drummond, a minha contribuição é esta: infinito, indevassável, unitário, puro, com sensibilidade jamais alcançada. Tão completo no amor que sempre o imaginei concordando com Nelson Rodrigues, de seu tempo: “O amor é eterno; se acaba, não era amor”. Ele mesmo escreveu: “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”. E como admiro muito quem sabe viver a vida, não deixaria de ir ao socorro de mais palavras drummondianas: “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”. Gostou? Não? Prefere ser masoquista? Não acredito! Então, falemos que “A dor é inevitável. O sofrimento é opcional…”

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.