Em Morro de Gaspar Soares a primeira siderurgia

Segui à frente. Em outras expedições ou na minha própria escalada rumo ao distante destino. Sozinho ou bem acompanhado, ou às vezes com algum grupo à minha espera para armazenar cada dia mais conhecimentos. Agora no percurso de Conceição do Mato Dentro a Morro do Pilar, escolhi a estrada original, pelo Sumidouro. Mas o traçado da rodovia, paralela, não sai do roteiro, visto que há sempre uma placa informativa assim: “Caminho dos Diamantes” ou a “Região da Estrada Real”.

Para o viajante ou estudioso desta jornada não faltam histórias e tão pouco lendas. O povoado foi fundado por Gaspar Soares lá pelos idos do século 18. Teve uma intensa exploração de ouro. Conta o historiador Dely Coelho Nogueira em seu livro “Morro do Pilar, berço da siderurgia brasileira” (Belo Horizonte, edição independente, 1983, 91 p.) que no século 18 a extração de ouro progredia intensamente no antigo arraial de Morro de Gaspar Soares. Mas mudou a história por causa de um acidente fatal: 18 escravos morreram soterrados. Por causa desse episódio, a extração mineral foi interrompida e nunca mais reativada. Conclusão natural: abunda o ouro no seio quase inexplorado de sete minas abandonadas.

A mineração do ferro foi ativada em Morro do Pilar, recentemente. Sob o comando da empresa Manabi, as atividades estavam aceleradas, mas sofreram paralisação brusca devido à forte crise do mercado internacional do minério de ferro, cujo preço por tonelada caiu vertiginosamente. Contudo, nada está perdido. O sonho do morrense, que chegou a pedir o empenho da própria mineradora para ficar em Morro do Pilar — ao contrário de requerer benefícios públicos, como outras cidades o fazem — pode tornar-se realidade quando ocorrer a esperada melhora na valorização do produto.

Nesta cidade foi erguido um monumento à primeira siderurgia do Brasil, instalada por Manuel Ferreira da Câmara Bittencourt e Sá, o então Intendente Câmara. Aí são mostradas algumas peças e ferramentas então utilizadas na fábrica e a história da iniciativa industrial. Bem ao lado do museu há uma rua bem movimentada pelas conhecidas mulheres chapeleiras. Além do artesanato de chapéus de palha, outras modalidades de trabalho elas oferecem, principalmente aos visitantes, em especial agora também aos viajantes da Estrada Real. Elas ficaram famosas desde os tempos em que a cidade era passagem de intenso trânsito de Belo Horizonte, via Serra do Cipó, para o Centro-Nordeste e Vale do Jequitinhonha.

Enquanto isso, com o incentivo da Prefeitura, os habitantes tentam o seu ganha-pão também por meio do turismo, explorando as suas praias, cachoeiras e as belezas naturais. Percorri, com o apoio de dezenas de anfitriões, as cachoeiras de Lajeado, Pica-Pau, Pedras, Funil e dos Herculanos. Os rios Preto e Peixe mostram belos cenários com praias e canyons, os quais conheci bem de perto.

Quando de minha viagem, em janeiro de 2005, ainda pude falar com José Jesus Pereira, o Zezinho Mata-Cavalo, dançarino de batuque. Ele contou histórias mirabolantes de Juquinha da Serra, outra lendária figura que hoje tem uma bela escultura no topo da serra, obra da artista Virgínia Ferreira, natural de Conceição do Mato Dentro. Zezinho, infelizmente, faleceu poucos meses depois deste contato, mas ficaram registradas, em tom de comemoração, as suas palavras cheias de muito riso: “Eu fiz o que ninguém fez aqui e  batuquei a noite toda com a Diva Doroty. Que belezura!”

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.