Drummond me inspirou e eu nem sabia quem era ele

Quando eu comecei a amar livros voluntariamente, aí por volta dos 11, 12 anos, li na casa de uma tia um daqueles livros da coleção “Para gostar de ler”. Um clássico do incentivo à leitura juvenil. Ele reunia crônica, contos e poesias de vários escritores famosos. Eu nem sabia quem eram eles… nunca tinha ouvido falar.

Confesso: detestava poesias. Não gostava mesmo. Achava chato quando rimava, achava estranho quando não tinha rima nenhuma e não conseguia acompanhar a linha de raciocínio confusa que não contava uma histórica com começo, meio e fim. Então, quando pegava um livro “Para gostar de ler”, pulava os poemas!

Acontece que aquele livro, lá da casa da minha tia, tinha um poeminha, pequeno, todo rimadinho, cheio de interrogações, que chamava “Verbo Ser”. Amei aquele título! Para uma menininha de cabelos lisos presos em chiquinhas, que nem sabia o que era um jornalista, aquele tanto de pergunta foi um atestado de compatibilidade!

VERBO SER
Carlos Drummond de Andrade

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.

Eu já era uma “perguntadeira” profissional e ainda achava uma poesia que fazia a mesma coisa? Era um mundo pra mim. Um mundo escrito por um conterrâneo famoso. Um moço careca, magrelo, de óculos. Todo mundo falava: “Você é de Itabira? É a terra de Drummond!” Naquela época, eu mal conhecia a cidade onde tinha nascido. Quanto mais um escritor famoso que nem vivo era mais… Mal sabia eu que esse tal de Drummond seria parte importante da minha vida.

Li aquele poema tantas vezes que nem sei dizer. Lia em voz alta, sozinha no quarto, como quem recita para uma multidão. Nunca tive coragem de fazê-lo para uma plateia, claro! Era um momento íntimo aquele… meu e da minha sutil descoberta literária.

Anos depois, dezenas de livros lidos, incontáveis autores favoritos, superadas as raivas com as poesias, aquele poeminha voltou! No programa da minha missa de formatura do 3º ano do ensino médio. Aquele momento em que todo mundo te pressiona pra escolher “o que você vai ser quando crescer”, agora que cresceu… Reli o textinho como quem encontra um velho amigo. Finalmente eu tinha respostas para aquelas perguntas todas reunidas ali.

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Tatiana Linhares. Muitas. Jornalista. Mineira. Tatuada. Outono e primavera. Pão de queijo. Livros. Música. Revistas. Cinema. Teatro. Futebol. Cruzeiro. Viagens de carro. Areia e mar. Esmalte colorido. Cerveja gelada. Família grande. Incontáveis amores. Paixonites agudas. Saudade. Simplicidade. Palavras