Diamantina: aqui começa a “chata” da Estrada Real

Hoje é noite de 17 de novembro de 2004 e estou em Diamantina. Procurei um hotel colonial, chique, do lado histórico da cidade, e sondei o preço, aos gritos, da janela semiaberta de meu carro. Um “tipo” mordomo (falando a linguagem dos jovens tipo gente) me deu o preço, também aos gritos — R$ 250,00 — valor muito salgado para um pernoite com café da manhã. Chove muito e não sei o que será amanhã. Um grupo de pessoas que cuida de turismo ficou de me encontrar amanhã, quinta-feira, no centro da cidade.

Preferi um hotel chamado “3 estrelas”, que se localiza a cem metros dali. Elevador, detalhes muito organizados, ar-condicionado, frigobar, eu sozinho, tudo por R$ 60,00, hora de fazer economia. E nele entrei sem cerimônias. Ainda ganhei um monte de revistas, folders, jornais. Depois do banho, nada de TV, comecei a ler sobre Diamantina, onde estive pelo menos umas dez vezes em toda a vida. Li muito sobre a ex-escrava Chica da Silva, mulata formosa, alforriada, prendada esteticamente, que passou pelas bandas do Arraial do Tejuco em meados do século 18, resultado do “amor” de Maria da Costa, outra escrava, com o português Antônio Caetano de Sá. Ela pertenceu ao Padre Rolim, inconfidente mineiro.

Muito mais atual que ela, cheguei ao conhecidíssimo ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, nascido em Diamantina, morto em 1976, num acidente de carro estranho e suspeito. Visitei a sua casa em companhia de um ex-companheiro dele de cavalgadas, Fabiano de Souza Moreira. Enquanto não abriam as portas da Casa de JK, aproveitamos o tempo que faltava para o horário e fomos a Biribiri, uma pequena vila, onde existia uma fábrica de tecidos em 1870, por aí, uma beleza que chama a atenção. Conversamos com Adilson Costa, zelador do vilarejo que ainda pertence à antiga Fábrica de Estamparia S.A.

Caprichei em algumas fotos, retornamos à cidade. No caminho, passando pelo Mercado Novo (o velho só abre aos sábados, no centro), ouvimos a opinião de Assis Bonifácio Reis, que criticou o turismo na cidade por provocar o aumento exorbitante dos preços, segundo ele. Diz Assis que o maior fluxo de visitantes elevou o custo de vida e denominou de “chata” a Estrada Real. “Falam disso e não entendo nada; acho que o povo vai demorar a entender”, arrematou. Conheci a Casa de Juscelino, ou JK, por dentro, passamos por uma escultura dele e, no centro, me encontrei com professores e alunos, com os quais percorremos as igrejas e outros monumentos, ouvi dezenas de informações acerca das belezas diamantinenses, incluindo cachoeiras e locais exóticos. E cada um falava quase ao mesmo tempo: “Somos Patrimônio Cultural da Humanidade, sabia?”

“— Será mesmo uma chatice essa comprida Estrada Real, mais de 1.600 quilômetros de extensão até Paraty, no Rio de Janeiro?” — Perguntei à turma de 23 pessoas, incluindo um guia oferecido gentilmente pelo Departamento de Turismo Municipal — “Depende”, respondeu a professora de História do Brasil, Maria do Carmo, que falou do que era interessante em sua cidade: o patrimônio cultural, imaterial, as histórias e a tradição da Vesperata, que se realiza sete vezes ao ano, de abril a outubro. Para todos em Diamantina, o ex-prefeito de Belo Horizonte, ex-governador de Minas Gerais e ex-presidente da República Juscelino foi o seu fundador. Ele dizia, segundo o pessoal, que “Diamantina é sinônimo de música e esta de alegria.”

Entendi que, para atrair mais o interesse popular ao grande Projeto Estrada Real, fosse indispensável falar nas escolas sobre essa criação da Fiemg e do Governo de Minas. Ou encontrar formas e fórmulas de explicar que a expectativa seria seguir o modelo de Santiago de Compostela, na Espanha, cidade internacionalmente famosa como um dos destinos de peregrinação cristã mais importantes do mundo. Cabe a nós torcer para dar certo e estamos fazendo a nossa parte. Mas, desde já, confesso que sinto vontade de ver o Brasil inteiro se interessar por esta relíquia, a Estrada Real, e nunca, nunca, nunca, uma chatice. Quem gosta de tragédias, como é comum ver por aí, aguarde que ocorreram muitas e muitas enquanto tudo ainda era passagem de riquezas tomadas de nós por bem ou por mal.

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.