COTIDIANO: Desculpe o transtorno

Das muitas conclusões a que minhas noites insones me ajudaram a chegar, uma eu tenho que compartilhar: as pessoas não deveriam me deixar sair na rua sem ostentar, brilhante e lindamente, uma bela placa no pescoço com os dizeres “desculpe o transtorno, mulher inteligente”.

Num mundo de mulheres pré-fabricadas e enlatadas, personalidade virou artigo de luxo. E a gente se sente na obrigação de avisar quando saímos da fábrica com o grave defeito de ter pensamento próprio.

Mas acho que no meu caso, sou produto descartável da fábrica de mulheres do Século 21. Não passar nos testes de padronização é motivo de sobra para ser descartada imediatamente.

Eu sinto informar a quem curte beldades produzidas em série que encabeço o lote com maior número de defeitos graves:

– não passei na pesagem apresentando valores acima da média geral;
– tenho gosto exacerbado pela leitura de livros, o que implica em conhecimento profundo do português formal;
– assisto noticiários e leio jornais o que faz de mim um ser com nível intelectual disforme para o padrão de qualidade exigido;
– minhas peças de roupa não são coladas, transparentes, curtas ou decotadas, caracterizando uma disfunção social avançada;
– meus cabelos vieram lisos e castanhos impossibilitando o uso de químicas avançadas de descoloração;

Como se vê, minhas chances de recall são mínimas, portanto tenho pouca salvação nesse sentido.

Em compensação, tenho a possibilidade de me destacar nos bazares e brechós por onde passar por atrativos antes dispensáveis. Sendo uma produção mal-sucedida, vim com um adicional de fábrica raro: vontade própria. Assim, não me privo ao defender minhas ideias e linhas de raciocínio. Também não me permito abrir mão do meu prazer pessoal com o sexo oposto e não me saboto no que diz respeito “aproximação de seres de mesmo defeito”.

Posto isso, aviso aos navegantes: esse barco tem comando e, definitivamente, não está navegando ao léu. E tem mais, temos uma vaga disponível para o cara que ousar integrar essa tripulação.

*Texto publicado originalmente no blog Interrogação.

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Tatiana Linhares. Muitas. Jornalista. Mineira. Tatuada. Outono e primavera. Pão de queijo. Livros. Música. Revistas. Cinema. Teatro. Futebol. Cruzeiro. Viagens de carro. Areia e mar. Esmalte colorido. Cerveja gelada. Família grande. Incontáveis amores. Paixonites agudas. Saudade. Simplicidade. Palavras