ESTRADA REAL: De Gramacho a Dominguinhos em Itambé do Mato Dentro

Uma das promessas que o meu ilustre e saudoso amigo Robinson Damasceno dos Reis, que partiu em data muito antecipada para o Além, era de criarmos a Fundação Romão Gramacho Falcão e estabelecer a sua sede na vizinha Itambé do Mato Dentro. O passo seguinte seria levantar a vida misteriosa de Gramacho, bandeirante português, que andou por nossas bandas entre os séculos 17 e 18. Teria ele construído a igreja de Nossa Senhora das Oliveiras, primeiro de capim, depois transformada num templo moderno, entre tantos feitos realizados.

Está escrito no Livro do Tombo da matriz local o seguinte: “Sabe-se por tradição que este povoado foi fundado pelo bandeirante Romão Gramacho, de fins de 1600 a princípios de 1700. Nele permaneceu alguns anos, ocupado na extração de ouro”. Reza uma lenda na região que todas as noites de sextas-feiras de lua cheia o bandeirante Gramacho corria as ruas do povoado em seu cavalo, fazendo mal a todos os que na rua eram encontrados. Não se sabe, entretanto, o motivo e sequer que mal fazia. Provavelmente, mandava todos para casa porque chegara a hora de dormir.

Uma lenda veridicamente comprovada, que habitou tocas de pedras nas proximidades da sede do município, chamava-se Domingos Albino Ferreira, conhecido como Dominguinhos da Pedra, ou O Homem da Caverna. Por minha iniciativa e ajuda de várias pessoas, consegui chegar ao eremita. A partir de primeira visita, conduzi ao local várias emissoras de rádio e TV, jornais e revistas. Domingos acabou sendo o artista principal de uma dezena de filmes que foram espalhados pelo Brasil e até pelo exterior.

Dominguinhos, que viveu mais de 50 anos ao ar livre, tudo por causa de uma suposta e mal explicada paixão, faleceu recentemente, depois de ser internado no Lar de Ozanan, em Itabira, cercado de especiais cuidados. Ao contrário do que as pessoas, inclusive psicólogos e assistentes sociais, pensavam, ele acabou sendo devorado por uma terrível depressão, com saudade de pisar nos estrepes das montanhas e até em cacos de vidro jogados ao chão por curiosos que o visitavam. Nada machucava seus duros pés.

A essas duas figuras notáveis, Gramacho e Domingos, se incorporam outras atrações de Itambé do Mato Dentro, incluindo a famosa Serra Cabeça de Boi, que mostra inscrições em pedras, de autoria de povos antigos, com cálculos estimados por especialistas da UFMG em 12 mil anos atrás. Cachoeiras, praias, paisagens naturais compõem a atratividade que incorpora a cidade à Estrada Real. Evidentemente, num conjunto de riquezas naturais com histórias e lendas, engaja-se Itambé para produzir outro poderio turístico: o turismo de eventos. Assim, a cidade promove ano a ano, a Festa da Padroeira, a Cavalgada do Centro-Leste, o Réveillon e o Carnaval.

Numa de minhas visitas a Itambé, passei um grande aperto, por pouco seria um desaparecido de nosso Rio Preto. Em companhia de amigos, como Roneijober Alves de Andrade, Sérgio Mourão e Afra Sana, não me contive em esperá-los. A função deles era fotografar detalhes como formigas, tanajuras e borboletas; a minha tinha como principal atividade entrevistar e fotografar personagens. Deixei-os, então, de carro e comecei a andar a pé em círculos à beira do rio, defrontando-me com cheias incríveis e obstruções de passagens. Com os círculos formados, veio a noite e somente por milagre consegui chegar à cidade, apavorado. Enquanto isso, os meus companheiros estavam malucos, imaginando que eu tivesse sido tragado pelo rio “que bufava”.

Essas e outras aventuras centenas de frequentadores desses caminhos históricos gostam de viver e reviver. Nem tanto a peripécia é boa assim, mas serve, depois, para compor declarações em palestras, na imprensa e em livros. Imaginemos como eram as aventuras de escravos e tropeiros, carregando ouro e diamante até o Porto de Paraty, no Rio de Janeiro. Sem suporte, cobertura e provisões, seriam quantas as incertezas e dificuldades do pobre carregador de riquezas a serem entregues ao Marquês de Pombal? Diria que cada um teve a sua história contada em verso e prosa, nunca reconhecida, mas nenhum de nós viu. Agora, não, a peregrinação nos permite refletir sobre a vida no período setecentista e pelo menos valorizar os grandes personagens da história.

Comentários

José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.