Cozinha não é glamour

A gastronomia é assunto presente em jornais, programas de TV, sites e rodas de amigos. Hoje todo mundo é Chef, Gourmand ou expert em alguma área relacionada ao mundo das panelas.

Os programas de TV com o tema eu não sei mais contar quantos são. Reality shows de famosos e anônimos, os sarados e saradas com suas marmitas lights nos blogs e vídeos no Youtube, atores, atrizes, cantores, cozinheiros superstars e seus vários programas nos canais abertos e pagos: mais do mesmo.

Já contei em uma programação fechada mais de cinco programas seguidos com a temática culinária. E, via de regra, estão lá as Le Creusets* coloridíssimas nos fogões e prateleiras, os inox refletem a iluminação do cenário, os “Chef’s” em seus dólmãs limpos e impecáveis, as moças maquiadas com brincos, anéis e pulseiras. Os convidados balançam seus cabelos sobre os alimentos. Nas competições os participantes correm cozinha a fora, os apresentadores gritam ordens enquanto ouvem a resposta em uníssono: “sim chefe!”

Gente, isso não existe em uma cozinha de verdade.

Não vou nem entrar na discussão do termo “Chef” hoje, isso é polêmica pra outro dia.

A verdade é que, se você resolver hoje entrar pro mundo dos fouets e das facas pensando em tudo que assiste e lê por aí, a decepção será certeira.

A gastronomia tem suas belezas e seus encantos, mas é comum ler em entrevistas de cozinheiros renomados o quão difícil foi percorrer os caminhos das pedras até alcançarem prêmios, sucesso e fama. Podem acreditar quando dizem que descascaram muita batata e lavaram muita panela, que enfrentaram quase um dia inteiro em pé suando em cozinhas apertadas.

Em uma cozinha “de verdade” não existe glamour. É ralação, é calor de quase quarenta graus, e, quando o verão chega com tudo, pode piorar. As panelas não são lindas e brilhantes, não dá tempo de lustrar inox com um salão lotado de clientes impacientes. Quem tem fome tem pressa. Não se entra em uma cozinha maquiada, cheia de brincos, piercings e acessórios, cabelos vaporosos, então… vapor só das panelas. Manter um uniforme limpo é tarefa árdua, missão quase impossível em dia de casa lotada e molho de tomate no cardápio, se você está trabalhando com chocolate é bom que tenha um alvejante de qualidade na lavanderia.

Você fica em pé às vezes por dez, doze horas seguidas. Se conseguir sentar pra almoçar é uma alegria enorme, mas não se empolgue porque logo tem a limpeza da cozinha e a preparação para o jantar – não o seu, claro. Quando eu cheguei ao meu primeiro emprego, lia no rosto dos colegas de trabalho: “ela não vai durar aqui uma semana”. Minha mãe dizia que eu não suportaria ficar sem fazer as unhas e nem perder os fins de semana com os amigos.

Trabalhar na cozinha é se despir de vaidade, perder o aniversário do seu melhor amigo, os encontros da família, é não ter vida social já que o seu fim de semana é quase sempre em uma segunda-feira. Enquanto seus amigos saem pra se divertir, você já está na metade do seu expediente, já lavou muita panela e já ouviu muitas gargalhadas dos clientes brindando de copo cheio enquanto você ainda não teve de tempo de parar para tomar um copo d’água.

Na cozinha a pressão é grande, o tempo é cronometrado, assim como nas competições dos Chef’s famosos por seus sotaques e menus caros. Só que não estamos concorrendo a carros e viagens. Estamos contra o tempo para servir refeições saborosas, bonitas e garantir a satisfação pessoal e o salário no fim do mês.

Eu não conto isso pra assustar ou desestimular ninguém. Meu objetivo é compartilhar com vocês a realidade da vida de um cozinheiro. A exceção é a fama, o glamour e os prêmios. A regra é a má remuneração, a falta de profissionais qualificados, as condições de trabalho deficientes, as longas madrugadas em claro e a anulação de uma vida social.

Eu conto tudo isso para vocês, mas não me arrependo nem um pouco da minha escolha. Largo tudo pra passar doze exaustivas e gratificantes horas no calor de uma cozinha apertada. Nada paga a satisfação de um prato bem executado, o sorriso do comensal ao receber à mesa seu pedido feito com amor e afinco.

É para isso que cozinheiros trabalham, é para isso que eu cozinho. Cozinhar é servir, é dar seu melhor, mesmo que não haja em sua cozinha panelas coloridas e bonitas e nem equipamentos modernos e milionários, mesmo que não tenha em seu menu uma estrela ou um ator da Globo dando nome ao seu prato.

O verdadeiro glamour da cozinha está em extrair o melhor do pior, em superar as dificuldades da profissão e a pressão do trabalho, e servir com maestria um prato executado com amor.

*Tradicional marca francesa de panelas e utensílios para cozinha. Uma panela pode custar, por exemplo, a bagatela de R$ 1.200,00.

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Kamila Duarte de Jesus ou simplesmente Nêga, como é chamada pela família e pelos amigos, traz a paixão pelas panelas no DNA. Bisneta de Raimundo Cozinheiro - cozinheiro dos ingleses que vieram para Itabira junto com a Companhia Vale do Rio Doce -, aprendeu a cozinhar ainda criança quando usava um mini fogão a lenha para preparar guisados e batatas para suas bonecas. Formou-se em Publicidade e Propaganda pelo Centro Universitário Newton Paiva por ouvir de todos que era muito criativa. A paixão pela gastronomia passou de brincadeira de criança a assunto de adulto e já atuando profissionalmente na área se formou em Cozinha Profissional pelo Senac – MG em 2014. Acredita que um bom prato de sopa até cura, que doce é um carinho na alma e que cozinhar é uma maneira de demonstrar amor ao próximo.