COTIDIANO: “TRANS”mutando ideias

Esses dias está rolando na capital mais cosmopolita do Brasil aqueles famosos desfiles que ditam tendências e novidades para o mercado de estilo nacional. A São Paulo Fashion Week é a semana de moda mais importante do país e todos os holofotes, todas as lentes e todas as atenções estão voltadas para os principais estilistas brazucas.

Mas esse ano há algo de novo no reino da moda brasileira. Os organizadores do evento inseriram a palavra “trans” no nome da famosa semana de moda. No dicionário, “trans” é um prefixo que significa “para além de”. Nada mais justo. A galera que organiza tudo disse que estão abrindo as portas para a “trans”formação, a “trans”gressão e a “trans”ição.

Eu achei uma maravilha! Como total defensora da diversidade, representatividade e a capacidade de criar nas pessoas identificação, estou alegremente surpresa com as boas novas da Fashion Week desse ano. E ainda mais com a visão fenomenal e sensível de alguns estilistas que usaram suas peças e seus desfiles como uma forma de atuarem também de social e politicamente em um meio que, por vezes, se volta para a segregação, a futilidade, o elitismo e as vaidades vãs.

Teve ocupação nas passarelas, sim! Teve gente saindo das margens! Teve gente passando por cima dos preconceitos! Teve pobre, gordo, preto, gay, trans e travesti! Teve de tudo um pouco e teve aplausos de pé! E, à frente de tudo isso, tiveram Emicida e Ronaldo Fraga mostrando como é bonito usar seu talento em prol dos outros.

Emicida decidiu que só a música não bastava e está atacando outras áreas que envolvem arte e cultura. Junto com o irmão Evandro Fióti e o estilista João Pimentas, estrearam nas passarelas com uma marca que deu destaque à uma moda muito urbana e extremamente elegante. Os modelos? Negros, gordos, magros, brancos, asiáticos e pessoas com vitiligo, para citar alguns exemplos. Uma celebração à diversidade e à miscigenação que fazem dos brasileiros seres tão únicos.

Mas foi o inacreditável e cada dia mais surpreendente estilista mineiro Ronaldo Fraga que chamou a atenção até de gente que não entendo “bulhufas” de moda. Nome idolatrado no meio, Ronaldo fez um desfile de uma delicadeza única. As peças foram um espetáculo à parte, já que ele interpreta o universo feminino com maestria. Mas o show ficou por conta de suas modelos. O casting era composto 90% por transexuais! Lindas e “classudas” elas dominaram a passarela, as roupas que vestiam e tiveram a plateia a seus pés. Nas palavras do próprio Ronaldo Fraga, em entrevista ao jornal O Globo, “falo de moda como forma de apropriação cultural. Eu gosto dos invisíveis”.

A verdade é que a gente não precisa que esses exemplos nos sejam dados em grandes eventos e com enorme cobertura midiática, se mudarmos nós mesmo a nossa forma de ver as realidades que nos são tão presentes cotidianamente.

E já que o assunto é moda, aproveite para se despir de suas opiniões pré-programadas, de suas visões pré-estabelecidas e de suas formas tão cruéis de preconceitos. Pare de associar mudança a algo ruim. Quem muda, evolui. Quem evolui, não fica estagnado em suas ideias.

Coloque a palavra “trans” em sua vida também. Seguem sugestões: “transar”, “transição”, “transitar”, “transviar”, “transmitir”, “transcender” “transgredir”, “transigível”, “transitório”, “transloucar”, “translúcido”, “transmissão”, “transferir”, “transigência”, “transparente”, “transpirar”, “transponível”, “transbordar”, “transcendente”.

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Tatiana Linhares. Muitas. Jornalista. Mineira. Tatuada. Outono e primavera. Pão de queijo. Livros. Música. Revistas. Cinema. Teatro. Futebol. Cruzeiro. Viagens de carro. Areia e mar. Esmalte colorido. Cerveja gelada. Família grande. Incontáveis amores. Paixonites agudas. Saudade. Simplicidade. Palavras