COTIDIANO: Sobre como me apaixonei irreversivelmente por Gabriel Garcia Marques

Logo que passei no vestibular, com 18 anos recém completados, virei um piolhinho de biblioteca. Primeiro porque era o único lugar na faculdade em que eu consegui me concentrar, segundo porque a Internet não era uma fonte de pesquisa tão confiável assim (e talvez ainda nem seja!) e terceiro porque eu tinha uma voracidade por leitura que meus livros pessoais não supriam.

Lembro que passava horas caminhando entre os corredores da seção de “ficção” em busca de autores que nunca tinha ouvido falar, escolhendo livros pelas capas e pelos títulos e pegando emprestados os livros de autores com nomes que tinham boa sonoridade.

Eu pegava tanto livro emprestado, e tão diversificados, que um belo dia, uma das bibliotecárias mais antigas da faculdade me chamou num canto, me entregou uma lista (escrita à mão com uma caligrafia linda) com cerca de uns trinta nomes de grandes autores mundiais. Ela falou com aquele de tom baixinho que só bibliotecários conseguem falar: “Reparei que você lê muito… mas não consegui identificar um estilo. Portanto, a lista ficou grandinha. Mas você nunca leu nada de nenhum desses autores. Talvez goste de algum”.

Aquela fofurinha de pessoa mal sabia o quão certeira seria! Muitos daqueles viraram meus autores preferidos… mas um ganhou espaço especial no meu coração.

Na lista tinham nomes como Dostoievsky, Tolstói, Milan Kundera, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Nelson Rodrigues, Humberto Eco e vários outros. No meio daquele tanto de nome estava: Gabriel Garcia Marques. Amei de primeira! Paixão à primeira lida.

Quando achei a prateleira em que seus livros estavam quase pirei! Que nomes maravilhosos: “Amor nos tempos do cólera”, “Cem anos de solidão”, “Crônica de uma morte anunciada”, “Memórias de minhas putas tristes”, “A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada”.

Para uma estudante de jornalismo, apaixonada pelas palavras e com imensa dificuldade (uma atual triste realidade) de criar títulos, aquele era o éden!

O primeiro livro que li foi “Amor nos tempos do cólera”. Dois dias depois, virei a noite devorando “Cem anos de solidão”. E assim, num ritmo frenético, li uns sete livros de Gabriel em um mês! Que magia era aquela que aquele senhorzinho simpático exercia em mim por meio de suas tão deliciosas histórias. Nunca mais abandonei aquele amor…

Essa semana comecei a reler “Memórias de minhas putas tristes”. E tive vontade de sair andando pela casa lendo em voz alta. O texto fluído, com prosa leve e envolvente, narrado em primeira pessoa, quase te coloca sentado no colo do personagem principal da narrativa. A forma como Garcia Marques descreve os locais, te coloca lá. O jeito como ele escreve sobre cheiros, o clima, as sensações… são quase sensoriais. É uma experiência que, em tempo algum, eu conseguirei colocar em palavras inteligíveis.

Então, gente linda, fica a dica do dia: leiam o trecho abaixo, apaixonem-se por Garcia Marques e sejam felizes!

“Fui adentrando um bairro de pobres que não tinha nada a ver com o que conheci nos meus tempos. Eram as mesmas ruas amplas de areias quentes, com casas de portas abertas, paredes de tábuas ásperas, tetos de sapé e pátios de cascalho. Mas sua gente havia perdido o sossego. Na maioria das casas havia as farras de sexta-feira cujos bumbos e pratos repercutiam nas entranhas. Qualquer um podia entrar por cinqüenta centavos na festa que mais gostasse, mas também podia pegar carona e entrar de contrabando. Eu caminhava ansioso de que a terra me engolisse dentro da minha fatiota de ver Deus, mas ninguém prestou atenção em mim, a não ser um mulato esquálido que cochilava sentado no portão de uma casa da vizinhança.

– Salve, doutor! Me gritou de coração, feliz trepada!

Que mais eu podia fazer a não ser agradecer? Tive que me deter três vezes para recobrar o fôlego antes de alcançar a última ladeira. Dali vi a enorme lua de cobre que se erguia no horizonte, e uma urgência imprevista do ventre me fez temer pelo meu destino, mas passou ao largo. No final da rua, onde o bairro se transformava num bosque de árvores frutíferas, entrei no armazém de Rosa Cabarcas.” (Garcia Marques, Gabriel – Memórias de minhas putas tristes).

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Tatiana Linhares. Muitas. Jornalista. Mineira. Tatuada. Outono e primavera. Pão de queijo. Livros. Música. Revistas. Cinema. Teatro. Futebol. Cruzeiro. Viagens de carro. Areia e mar. Esmalte colorido. Cerveja gelada. Família grande. Incontáveis amores. Paixonites agudas. Saudade. Simplicidade. Palavras