COTIDIANO: Saudade = esperança

A cultura internética nos ensinou em texto clichês que “saudade é não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos…” Mas foi Clarice Lispector (e porque não ela?) quem me ensinou, melancolicamente, o que é a sensação de se ter saudade de alguém:

“saudade é um pouco como fome, só passa quando se come presença. às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. essa vontade de um ser o outro, para unificação inteira, é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.”

Passei a vida brigando com a saudade. Não é uma convivência pacífica a nossa. Ela está tão presente em mim que está preste a figurar na lista de palavras que me descrevem. “Tatiana, jornalista, cruzeirense, salgueirense, mineira, leitora compulsiva, escritora em desenvolvimento, um poço de saudades…”

Essa palavra irritante que só nós temos para explicar o sentimento de sentir a falta de algo ou alguém com grande importância pessoal.

Pense uma pessoa que passou a vida se despedindo?

Pois é. Despedidas eram muito tranquilas quando quem estava indo era eu. Por mais inconveniente que fosse a saudade que eu levava, eu estava indo para novos lugares, em busca de novos rumos, com muitas novas pessoas para conhecer e incontáveis novas vivências me esperando.

Assim, a saudade perdia seu espaço até que o novo passasse a ser o rotineiro e o rotineiro ganhasse status de antigos hábitos. Os antigos hábitos são os portadores das lembranças mais adoradas pela saudade… aquelas que te pegam pelos pontos fracos e afloram a sensibilidade.

Mas descobri, recentemente, que ficar com a saudade enquanto o outro vai embora com as lembranças é uma das coisas mais difíceis que já imaginei sentir. Porque quem fica não segura só a onda das recordações, mas de tudo que é fisicamente ligado a elas. O cheiro que fica na roupa, a rua por onde se tem que passar uma vez por mês, os lugares onde estiveram juntos, os amigos em comum.

É uma saudade incontida. Uma saudade que te impulsiona a escrever textos, mandar inbox no Facebook, não se controlar e encher o celular do outro de SMS. Vez ou outra eu tenho ímpetos de ligar só pra dizer: “a saudade não quer me deixar em paz até que a gente possa ouvir sua voz e ter certeza de que tudo vai bem por aí…”

Nos últimos tempos tenho negociado com a saudade umas possíveis soluções para o nosso caso. Não tenho sido bem-sucedida. Você ainda me faz falta com esse olhar intenso, o toque preciso, o sorriso tímido e a fala mansa. Graças à saudade tenho mantido vivas datas e momentos que espero repetir num futuro breve. Por isso, a melancolia típica da saudade está dando lugar ao sentimento de esperança, já que saudade também prevê reencontros.

E assim fico eu e a esperança da volta aguardando para aproveitar a melhor parte da saudade… a hora de matá-la!

Texto publicado originalmente no blog Interrogação.

Comentários

Tatiana Linhares. Muitas. Jornalista. Mineira. Tatuada. Outono e primavera. Pão de queijo. Livros. Música. Revistas. Cinema. Teatro. Futebol. Cruzeiro. Viagens de carro. Areia e mar. Esmalte colorido. Cerveja gelada. Família grande. Incontáveis amores. Paixonites agudas. Saudade. Simplicidade. Palavras