COTIDIANO: Política da boa vizinha

Em 1933, o presidente norte-americano Franklin Roosevelt decidiu: não ia mais usar a força para resolver pequenos conflitos com os países latinos. Ele precisava do nosso lado da América para construir políticas entre nações e conquistar aliados por perto pareceu-lhe o mais acertado!

Então, engajado no projeto, começou a investir na venda de tecnologia para tais países, em troca do apoio político dos mesmos. Esperto que só ele, usou o que mais pareceu acessível à época: o amor do latino à cultura e as artes. Assim sendo, com um plano cuidadosamente bem traçado e executado, distribuiu por aqui filmes que não mostrassem a face malvista dos norte-americanos, como discriminação racial; criou personagens com características específicas nossas, ligados a grandes franquias, como o Zé Carioca, da Disney; e – jogada de mestre – transformou Carmem Miranda em símbolo da nossa cultura nos EUA.

Surgia, assim, a famosa “política da boa vizinhança!”

Não sabia, né?! Nem eu! Fui descobrir quando parei para pensar como era boa a relação que tínhamos com nossos vizinhos na infância.

Eu não sei vocês, mas eu vivi em diversos bairros e ruas que prezavam por intensas relações de amizade entre vizinhos. Na Bahia, por exemplo, minha mãe conta que as mães saiam com as crianças para a rua, no fim de tarde, para esperar os pais chegarem do trabalho. Ficava aquela molecada brincando e a mulherada papeando, aproveitando o fim do dia.

Quando morei no Pará, a gente não fazia nada individualmente. Tudo era em grandes grupos de crianças que, de tão amigas, faziam a aproximação dos pais e virava tudo uma coisa só. Se minha mãe chegasse à varanda e não me visse, sabia que certamente alguma vizinha tinha assumido a responsabilidade de tomar conta da criançada. Todos os vizinhos eram “tios”. A gente tinha liberdade para entrar e se sentir em casa. Não tinha aquela cerimônia toda… Meus brinquedos eram nossos, os brinquedos dos outros eram nossos… A gente aprendeu o valor de saber compartilhar brinquedos, experiências e momentos…

Depois de algum tempo essa prática foi se perdendo, as pessoas foram ficando com medo, seus vizinhos não eram mais aquelas pessoas que sempre moraram na casa do lado. Os muros cresceram, os portões se trancaram. A gente foi se fechando dentro de casa. Os vizinhos passaram a nem olhar na sua cara quando cruzavam com você na rua.

Aqui, onde moro, ainda há a política da boa vizinhança! Gente fantástica que ainda traz ovos quando volta da roça e para quem minha mãe manda cestas de chocolate quando é Páscoa. Uma geração de senhorinhas que fazem questão de ter os vizinhos por perto sempre que possível.

Recentemente, do nada, a criançada deixou de ser os meninos enjoados que tocavam o interfone e fugiam, viraram os “pré-aborrecentes” que te olham com desdém e viram a cara e chegaram ao estágio de adolescentes sorridentes e cheios de hormônio. Simpatia pouca é bobagem. Encontro com eles se esfregando com os namoradinhos nos muros, descendo de mãos dadas com novos “ficantes”, ajudando a senhorinha da esquina a carregar o carrinho do sacolão, fumando escondido na entrada da garagem de alguém, dando uns “amassos” com carro estacionado na minha porta.

Acho que alguns valores são desses meios rotativos… de tempos em tempos, a gente recupera! E que coisa boa saber que nada supera a feliz sensação de manter  viva a política da boa vizinhança!

LEIA OUTROS ARTIGOS DA COLUNA “COTIDIANO”

Comentários

Tatiana Linhares. Muitas. Jornalista. Mineira. Tatuada. Outono e primavera. Pão de queijo. Livros. Música. Revistas. Cinema. Teatro. Futebol. Cruzeiro. Viagens de carro. Areia e mar. Esmalte colorido. Cerveja gelada. Família grande. Incontáveis amores. Paixonites agudas. Saudade. Simplicidade. Palavras