COTIDIANO: Palavra por palavra, eis-me aqui nessa paixão insaciável

ALERTA DE DATA COMEMORATIVA: Hoje é dia do jornalista! Aêêêêêêêêêê! Todos comemoram! Ou não…

Apaixonada que sou por minha profissão, devo deixar claro que não temos lá muito o que comemorar. Essa raça desunida, mas batalhadora, enfrenta, desde que a profissão foi inventada (sabe-se lá quando!), sérios problemas para exercer com dignidade sua função.

Discussões filosóficas à parte, o jornalista tem como função básica fazer chegar ao maior número possível de pessoas a maior quantidade possível de informações. Dar acesso ao que acontece por aí, é – primordialmente – o que nos move. Bonito, né?! Não imaginam como é difícil!

Um bom jornalista, penso eu, deveria prezar pela honestidade com que dá a informação, o distanciamento da notícia e, sobretudo, o cuidado para que sua própria opinião não esteja ali influenciando as opiniões alheias. Minha função não é te dizer o que e como pensar… mas te conduzir à reflexões por meio das informações compartilhadas. Quem escolhe o que achar do que é noticiado é a pessoa informada e não o jornalista que informa! Entendem?

Fico deveras revoltada quando pipocam à boca miúda comentários cruéis sobre veículos de comunicação manipuladores… por dois motivos:
1) me envergonho do jornalista que, inescrupulosamente, usa sua função para conduzir o pensamento de terceiros de acordo com seus interesses pessoais.
2) me envergonho das pessoas que têm preguiça de pensar por si mesmas e tomam notícias jornalísticas por verdades absolutas.

A liberdade de imprensa me dá o direito de buscar a verdade das informações onde quer que ela esteja! A liberdade de expressão dá a mim, e a vocês, a autonomia para falar sobre o que quiser sobre tal informação. E o livre pensamento te dá todo o direito do mundo de não concordar comigo!

Gente, jornalistas não são deuses portadores da verdade!!! São simples garotos de recado! Não estamos aqui para te dizer que o que escrevemos ou falamos ou filmamos ou fotografamos são a verdade mais pura e simples. Estamos aqui para te contar que aquilo aconteceu… e você faz o que quiser com essa informação!

Agora, desabafos à parte, sou uma feliz jornalista, formada há quase 11 anos, exercendo minha profissão com total dedicação, amarradona no que faço e luto pelo reconhecimento da minha profissão!

E para encerrar bonito, vou usar as belíssimas palavras de umas das minha referências na vida: Gabriel Garcia Marquez! Colega de trabalho incrível que começou nas redações colombianas aos 19 anos!

“Há uns 50 anos não estavam na moda escolas de jornalismo. Aprendia-se nas redações, nas oficinas, no botequim do outro lado da rua, nas noitadas de sexta-feira. O jornal todo era uma fábrica que formava e informava sem equívocos e gerava opinião num ambiente de participação no qual a moral era conservada em seu lugar.

A prática da profissão, ela própria, impunha a necessidade de se formar uma base cultural, e o ambiente de trabalho se encarregava de incentivar essa formação. A leitura era um vício profissional.

Porque o jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade. Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são.

Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte.”

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Tatiana Linhares. Muitas. Jornalista. Mineira. Tatuada. Outono e primavera. Pão de queijo. Livros. Música. Revistas. Cinema. Teatro. Futebol. Cruzeiro. Viagens de carro. Areia e mar. Esmalte colorido. Cerveja gelada. Família grande. Incontáveis amores. Paixonites agudas. Saudade. Simplicidade. Palavras