COTIDIANO: O que está acontecendo?

Como digerir uma notícia que diz em sua manchete “Jovem de 16 anos sobrevive a estupro coletivo”? Se alguém conseguir, me conte. Estou meio em choque. Não com a notícia, que infelizmente é recorrente. Com o ato e, sobretudo, a reação de muitas das pessoas que tiveram acesso ao vídeo (divulgado em rede social). Para onde estamos caminhando em uma sociedade em que jovens com menos de 30 anos acham “normal” ver isso em rede social e, pior ainda, acham que devem comentar em apoio ao ato? Que pessoas são essas que vêm essa menina com um pedaço de carne?

30 caras. Supostos 30 homens que violentaram uma mocinha de 17 anos. E 30 não é um número real, porque cada um que comentou as publicações e a compartilharam achando “bacana” o ato entra nessa estatística. 30 que viraram dezenas em poucas horas. 30 que viraram centenas em um dia. 30 que certamente são milhares.

O que me deixa ainda mais passada é que o “estupro coletivo” é uma prática comum não só no Brasil, mas também em países como a Índia. Os homens envolvidos diretamente nos crimes, em vários depoimentos, acham que não fizeram nada de errado. Que o estupro é uma “punição”. Os motivos para uma mulher ser punida dessa forma? Estava no ônibus às nove da noite, saiu de casa usando uma saia curta, tem 17 anos com corpo de 25, tinha passado um “sedutor batom vermelho”, foi ao cinema sozinha com um amigo. Crimes hediondos, não é leitor?

O que é ainda pior é que os atos violentos contra as mulheres não são tratados como crimes que necessitam investigações criteriosas. Pessoas que filmam um estupro coletivo e o divulgam como um troféu, começam suas agressões contra o sexo oposto de formas que a sociedade trata como “frescura feminina”: cantadas de baixão calão, envio de fotos íntimas pela Internet, assédios de todos os tipo, tentativas de agarrar mulheres em festas, encoxadas em transporte público.

Mulheres, não se permitam passar por isso. Não guardem para vocês as agressões pelas quais passam. São crimes! Se denunciados, são seriamente investigados e esses homens podem ser presos. Conheça seus direitos e como defendê-los:

Assédio sexual: O assédio caracteriza-se por constrangimentos e ameaças com a finalidade de obter favores sexuais. (conforme Art. 216-A.do Código Penal)

Importunação ofensiva ao pudor: é o assédio verbal, quando alguém diz coisas desagradáveis e/ou invasivas (as famosas “cantadas”) ou faz ameaças. Tais condutas também são formas de agressão e devem ser coibidas e denunciadas. (Conforme Art. 61 da Lei nº 3688/1941)

Estupro: tocar as partes íntimas de alguém sem consentimento também pode ser enquadrado como estupro, dentre outros comportamentos. (Conforme Art. 213 do Código Penal: Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso).

Ato obsceno: é quando alguém pratica uma ação de cunho sexual (como, por exemplo, exibir seus genitais) em local público (inclusive na Internet), a fim de constranger ou ameaçar alguém. (Conforme Art. 233 do Código Penal)

Caso você tenha passado por alguma dessas situações, procure uma Delegacia de Polícia Civil e registre um boletim de ocorrência. De posse do número desse registro, vá a uma Delegacia de Defesa da Mulher e solicite a abertura de uma investigação. Os fatos serão apurados, os suspeitos investigados e, comprovado o crime, processados e presos conforme as acusações.

Se você conhece alguém que esteja sofrendo com qualquer tipo de agressão ou abuso, ajude denunciando e discando 180.

 Quem muda a nossa sociedade somos nós! Assistir atos violentos e não denunciar é se tornar cúmplice!

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Tatiana Linhares. Muitas. Jornalista. Mineira. Tatuada. Outono e primavera. Pão de queijo. Livros. Música. Revistas. Cinema. Teatro. Futebol. Cruzeiro. Viagens de carro. Areia e mar. Esmalte colorido. Cerveja gelada. Família grande. Incontáveis amores. Paixonites agudas. Saudade. Simplicidade. Palavras