COTIDIANO: O que a gente não vê

Um choque atrás do outro. É assim que nós temos vivido ultimamente. A barbárie humana não tem mais encontrado limites e o desrespeito pela vida do próximo virou algo obsoleto e dispensável. Estupro coletivo, assassinato de crianças, atiradores matando dezenas.

Eu me pergunto quando é que entramos nesse ciclo de violência gratuita sem perceber? Ou será que já estávamos nele e só agora resolvemos prestar atenção? A questão é: por que estamos aceitando viver amedrontados, acuados, assustados, barbarizados, indefesos?

Não dá para passar essa semana sem dizer o quão chocada fiquei com a notícia de 49 mortos em uma boate gay norte-americana. Um cara, ninguém sabe pra quê e nem por quê, entra armado e sai distribuindo tiros para todo lado. Entre os sobreviventes há quem diga que o atirador verificava para ter certeza se tinha realmente conseguido atingir “com sucesso” seus alvos.

A mídia não se cansou, ainda, de soltar matérias sobre o caso. Falou das vítimas, falou do atirador, mostrou histórias comoventes, fuçou até achar postagens em redes sociais e vídeos em aplicativos. A tragédia humana está lá, estampada com todas as suas cores. Para quem quiser ver, ler, ouvir e tirar suas próprias conclusões.

Manifestações de todos os tipos pipocaram mundo afora. Postagens de condolências, presidentes questionando o porte de arma, militares acusando grupos extremistas, militantes brigando por suas causas. Indelicadezas foram trocadas. Pessoas foram mal interpretadas. E a vida humana, novamente, perdeu a atenção pública.

O que acontece depois da tragédia ninguém conta. A angústia que fica para tanta gente que se vê obrigada a acordar todos os dias c0m sua dor, vendo essa história ser incansavelmente repetida e discutida, mundo afora.

Não me interessa a sexualidade de quem foi vítima desse massacre. Não me diz respeito a religião do atirador.

O que eu tento, diariamente, entender é como a vida de alguém se tornou algo tão descartável. E como as pessoas conseguem viver sem se sensibilizar com isso.

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Tatiana Linhares. Muitas. Jornalista. Mineira. Tatuada. Outono e primavera. Pão de queijo. Livros. Música. Revistas. Cinema. Teatro. Futebol. Cruzeiro. Viagens de carro. Areia e mar. Esmalte colorido. Cerveja gelada. Família grande. Incontáveis amores. Paixonites agudas. Saudade. Simplicidade. Palavras