COTIDIANO: Não é o mundo que está doente, são as pessoas

O mundo tem passado por momentos difíceis, caóticos e desesperadoramente tristes. Desastres naturais, tragédias ambientais, chacinas, matanças, ataques bélicos, intolerância social, preconceito racial, guerras religiosas, ataques ideológicos, mortes gratuitas. Rios de lama, poças de sangue e mares de lágrimas.

Nessas horas há sempre quem diz “o mundo está doente!”. Não! Ele não está! Doentes estão as pessoas! Rancorosas, egoístas, preconceituosas, intolerantes, desrespeitosas. Consigo e com outrem! Há apenas uma coisa que me choca mais do que as mortes na França e a lama em Mariana: a capacidade que as pessoas têm de serem cruéis com o próximo!

Gente, eu não consigo aceitar o cara que posta na sua rede social a foto de seres humanos sendo executados e deseja aquilo para um político ou para o diretor de uma empresa que cometeu crime ambiental. Acima do erro cometido, há uma pessoa ali. E desejar uma morte cruel e dolorosa para ela não é normal! Não há sanidade em imaginar que devolver violência com mais violência é algo aceitável.

Já não é suficientemente dolorido assistir impotente à dor do outro? Já não lhes parece sufocante a sensação de que não se pode fazer nada frente a tanta destruição e tristeza? Ainda temos que assistir a ignorantes e intolerantes que se sentem capazes de julgar a perda alheia, de se promover com a tragédia de terceiros, de criar grupos de discussão de quem deve ajudar a quem!

Comece se ajudando, meu senhor! Procurando um profissional gabaritado para lhe dizer o quão desumano o senhor é!

Pessoas estão sem casa, sem lar, sem família. Aos milhares elas migram do único lugar que julgaram seguro, porque não há mais segurança. Gente perdendo todas as referências de uma vida inteira! Gente esquecendo o que é ter esperanças de dias melhores. Gente que não se sente acolhido, porque não é!

Eu me pergunto se essas pessoas, tão contrárias a receber imigrantes ou ajudar desabrigados ou se solidarizar com a vida de terceiros, já tentaram se colocar no lugar? Eu jamais conseguiria imaginar o tamanho da dor de um pai que vê as fotos do corpo do filho numa praia estampando capas de jornais no mundo inteiro. Eu me sinto ofendida pelas palavras agressivas de quem acha comum mais de 140 pessoas serem “abatidas” a tiros. Eu me assusto quando leio “bandido bom é bandido morto” abaixo na notícia do assassinato de cinco jovens trabalhadores e esforçados baleados por sua cor de pele e seu CEP. Me dói, por mais clara que seja a minha pele, ver amigos amados sofrerem com manifestações nojentas e inaceitáveis de preconceito. Me causa ira ver que as pessoas não podem se amar livremente porque alguém que não entende o real sentido do amor… e acha que é o mais aceitável é quebrar uma lâmpada na cabeça de um desconhecido no meio de uma avenida. Me choca que policiais achem justo espancar estudantes que estão lutando pelo direito de estudar e o governo corroborar com a ação porque é mais fácil fechar uma escola do que fazer os reparos necessários para que se tenha condições dignas de usufruir de educação com qualidade!

A doença está no comportamento humano! A doença está no pensamento deturpado de uma sociedade há muito viciada em recusar diferenças! A doença está no egoísmo! A doença está em aceitar algumas dessas situações só porque elas não te atingem diretamente!

Aprendam de uma vez por todas: não há normalidade nesse comportamento destrutivo e somos nós os responsáveis pela mudança desse mal causado por pessoas que podem ser tudo, menos humanas!

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Tatiana Linhares. Muitas. Jornalista. Mineira. Tatuada. Outono e primavera. Pão de queijo. Livros. Música. Revistas. Cinema. Teatro. Futebol. Cruzeiro. Viagens de carro. Areia e mar. Esmalte colorido. Cerveja gelada. Família grande. Incontáveis amores. Paixonites agudas. Saudade. Simplicidade. Palavras