Conceição do Mato Dentro, a sempre culta cidade-polo

Houve transformações na velha Conceição do Serro de uns anos para cá. Parte importante da Estrada Real e do Caminho dos Diamantes, as novidades variam de gostos e preferências. A mineração está mudando a feição da cidadezinha que só tinha como agitador o Jubileu de Bom Jesus de Matozinhos, realizado na segunda quinzena de junho, anualmente. Era a vida pacata das escolas que atraiam estudantes do Brasil inteiro, a começar pelo Ginásio São Francisco, o Colégio São Joaquim e a Escola de Comércio Conceicionense, pontos de referência de uma história tricentenária.

E estava eu de volta, como sempre estive lá, na terra de Daniel de Carvalho, cidadão que deixou a sua contribuição também em Itabira, na educação. O mesmo sentimento de chegada se deu com o geólogo John Mawe, no século XIX, ao escrever: “Cheguei a Conceição, uma grande aldeia muito bela”. A minha data era 20 de janeiro de 2005, quando se comemorava o Dia de São Sebastião na histórica igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, pelo Padre Marcello Romano. A Matriz de Nossa Senhora da Conceição estava totalmente interditada, até para os morcegos tradicionais e inarredáveis. A ermida vive aguardando as verbas federais, e tinha, tem e terá dificuldades porque o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) não sabe mais a quem recorrer neste país quase quebrado.

Mas a minha intenção era curtir as riquezas locais e registrá-las para os amantes da Estrada Real. Primeiro as atrações naturais: cachoeiras do Tabuleiro (273 metros de queda d’água, embora de líquido escasso), Três Barras e Rabo de Cavalo, e Piraquara, Salão de Pedras, Campo Grande, Pocinho Azul e Córrego do Baú. Depois as igrejas: Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, por fora a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, também a de Sant’Ana e o Santuário de Bom Jesus, algumas que fazem lembrar o Barroco um tanto quanto descuidado em algumas espécies.

A cidade tem mais atrações, como o rico artesanato, as fábricas de couro, o Mercado Municipal, de 1931, a Biblioteca Municipal e o adiantado grau da cultura imaterial em que se despontam suas bandas de música, grupos de marujos, caboclos e outras atrações do folclore. À noite, a frequência aos bares é uma referência que não posso, jamais, esquecer. Desculpem-me por ser particular neste aspecto: há um barzinho no Bairro da Bandeirinha, onde ingeri a minha primeira coca-cola da vida, com moedas super contadas, na década de 1960. De volta ao local, 35 anos depois, o bar permanece, mas de outra forma: seus amantes de goles se reúnem para brincar com a vida. Acreditem, fazem listas dos sócios do “Sindicato do Buda”, o dono da funerária da cidade, ou seja, dos que estão para morrer por causa da bebida em excesso e têm seus nomes pregados na parede. Haja humor negro e alegria inexplicável nesse pessoal! Até o dono conta os anos de vida que seus clientes têm para viver. E como me fizeram rir!

Ao recordar Conceição dos anos 1960, a decepção da viagem ficou por conta das ruínas do velho Ginásio São Francisco, onde passei boa parte de minha adolescência. Depois da má notícia de 2005, dez anos depois o local virou uma grande escola do Senai. Ainda bem. Das mãos competentes dos Padres Capuchinhos (que me deram coques na cabeça como se minha cachola fosse saco de pancadas) à Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), mesmo sem o charme de São Francisco de Assis. Que tenham uma vida eterna!

Mas, aí está a brava Conceição! Hoje tem algo que o povaréu adora: dinheiro, dinheiro, dinheiro, vil metal que quase não era visto naqueles velhos tempos da cidade pacata. E há um grito “pega ladrão” quase todo dia pululando no ar, já pensou? Nem sei como reagem os aposentados que vêm da roça, coitados, enchem as capangas com dinheiro miúdo e são surrupiados. Assaltos!!! Cuidem-se, meus amigos de infância e as novas gerações. E que, mesmo no auge da mineração, não se esqueçam: aqui é Estrada Real p…!

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.