CINEMA: O reflexivo e instigante “Na Natureza Selvagem”

Liberdade é um estado de espírito. É ter a capacidade de romper com conceitos e padrões pré-estabelecidos e, assim, se abrir para o novo. Porém, a sensação de conforto gerada por uma rotina de vida tradicional impede que a maioria das pessoas experimente esse estado de espírito que as coloca como senhoras do seu caminho. Eu me encaixo nesse grupo de pessoas.

Não à toa que sou arrebatado por qualquer manifestação artística que te impele a romper com os padrões tradicionais e sair em uma jornada pessoal de desbravamento desse mundão. Isso não só pelo gosto da aventura, mas também pelas possibilidades de autodescoberta e o contato com diferentes modos de se encarar a vida. Talvez por não ter reunido coragem suficiente para se aventurar na estrada, me rendo às obras literárias, cinematográficas e musicais para soltar a imaginação e cultivar um falso sentimento de desprendimento.

Jack Kerouac foi um dos responsáveis por eu romantizar aquele espírito livre que se inquieta caso fique parado por tempo demais. Quando terminei de ler o livro “On The Road”, o único pensamento que tinha em minha cabeça era deixar o trabalho para trás e sair por aí com uma mochila nas costas – rodar o mundo, conhecer pessoas, viver experiências. Sem nada mais importar. Sentimento esse que voltou com a leitura de “Vagabundos Iluminados”. Mais uma vez a figura romantizada do viajante tomou conta da minha mente.

Porém, foi com o filme “Na Natureza Selvagem”, dirigido por Sean Penn, que o desejo de colocar o pé na estrada tomou conta de mim. O longa conta a história real de Chris McCandless que, aos 22 anos, largou uma vida estável e a possibilidade de uma carreira promissora em busca da sua liberdade. Após se rebatizar como Alexander Supertramp, partiu em uma jornada rumo ao longínquo e desabitado Alasca.

O estilo de vida adotado por McCandless, que a princípio se mostra solitário, é invadido em diversos momentos por figuras interessantes e únicas. E a beleza do filme se encontra aí: a capacidade de se permitir trocar experiências com pessoas diferentes e com visões de mundo únicas. Do bate-papo com um veterano de guerra, da estadia com um casal hippie ao arrebatamento da paixão – que nasce inocente e sem amarras.

Para quem se sente sufocado por uma rotina extenuante de estudo, trabalho, compromissos sociais e relacionamentos vazios, “Na Natureza Selvagem” se apresenta como um convite ao novo e à liberdade pessoal. Mais do que um roadie movie, o longa dirigido por Sean Penn – e inspirado no livro homônimo de John Krakauer – promove uma profunda reflexão sobre o nosso papel social e como nos inserimos no modelo atual de sociedade.

“Na Natureza Selvagem” é um filme instigante e incômodo que ganha uma beleza extra na trilha sonora composta por Eddie Veder, aquele mesmo da banda Pearl Jam. Uma sessão musical que também vale a pena ser apreciada no volume máximo do som – preferencialmente com a mochila nas costas e o vento no rosto. Mas enquanto não me aventuro por essas estradas, me resguardo ao dever de tornar as palavras um exercício de reflexão e, de alguma forma, experimentar meus momentos de liberdade.

FICHA TÉCNICA

Nome original: Into The Wild
País de origem: EUA
Ano de lançamento: 2007
Gênero: Aventura, Drama, Biografia
Duração: 148 minutos
Diretores: Sean Penn
Roteiristas: John Krkauer, Eric Gautier, Mary Claire Hannan, Sean Penn
Elenco: Emile Hirsch, Aaro Wayne Hill, Hal Holbrook, Kristen Stewart, Vince Vaugnh, jena Malone

TRAILER

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.