CINEMA: Choose your life, um recado de Trainspotting

As drogas são assuntos recorrentes em diversas produções cinematográficas. Porém, muitas delas acabam pecando na hora de trabalhar essa temática, principalmente por se amparar em conceitos morais para tentar passar uma mensagem que afaste as pessoas dos entorpecentes. Essa abordagem costuma ser vazia, desinteressante, distante da realidade e limitando as reflexões sobre um assunto que ainda é tabu. Mas isso não acontece no excelente “Trainspotting – Sem Limites”.

Lançado em 1996, o filme é a segunda produção assinada pelo diretor Danny Boyle, que conta com o excelente roteiro de John Hodge – que transpõe magistralmente para as telas o livro “Trainspotting”, de Irvine Welsh. A trama é contada sob o ponto de vista de Mark Renton (uma grande atuação de Ewan McGregor), um jovem escocês que junto de seus amigos se entrega ao uso de heroína – e outras drogas.

O caminho niilista escolhido pelo grupo é, de certa forma, respaldado pela descrença que nutrem na sociedade. A Escócia, do ponto de vista deles, reúne uma comunidade presa a certos valores morais e sociais que não apontam grandes perspectivas para os jovens suburbanos. Diante dessa falta de expectativa, os jovens se entregam à bebida, festas e o consumo excessivo de heroína.

Ao contrário do que normalmente acontece em muitos filmes, a droga não é tratada como a grande vilã da história. Os momentos de euforia são muito bem retratados – sem cair em julgamentos morais – e contados a partir do ponto de vista do próprio usuário, que aponta os prazeres e consequências de seu vício. Se de um lado Renton se permite às sensações orgásticas da heroína, do outro presencia a morte de um bebê pelo descuido da mãe viciada –só para embalar mais uma dose.

Mesmo se tratando de um tema pesado, o filme não deixa, em momento algum, o humor de lado. Mérito do roteiro de Hodge, que brinda o público com diálogos ágeis, inteligentes e recheados de referências à cultura pop: discussões sobre futebol, críticas à colonização inglesa, mergulhos nas canções de Iggy Pop e as análises sobre 007 e o James Bond de Sean Connery. Uma gota de Tarantino, e o seu “Pulp Fiction”, na obra de Boyle.

O diretor, inclusive, acerta a mão nas tomadas de câmara, que aceleram de acordo com a imersão dos personagens na adrenalina gerada pelo seu vício e seu estilo de vida desregrado. Boyle também se vale das viagens psicodélicas para emergir o espectador nos efeitos das drogas. E isso rende momentos únicos, como a já clássica cena de Renton mergulhando em uma privada em um banheiro público.

O grande mérito de “Trainspotting” é abordar a juventude e seus questionamentos, a falta de perspectiva em meio a uma sociedade entregue ao consumismo e programas de TV, e, claro, o uso de drogas sem ser piegas ou se prender em panfletagens moralistas. O que permite ao público refletir sobre a trajetória de Renton e companhia.

Se ainda não se entregou às viagens desses suburbanos escoceses, está na hora de dar o play no vídeo, pois o lançamento da aguardada continuação desse filme foi anunciada para janeiro do ano que vem. “T2”, como foi batizado, chegará aos cinemas com elenco original… notícia para fazer a alegria dos cinéfilos.

FICHA TÉCNICA

Nome original: Trainspotting
País de origem: Reino Unido e Irlanda do Norte
Ano de lançamento: 1996
Gênero:  Drama
Duração: 94 minutos
Diretor: Danny Boyle
Roteirista: John Hodge
Elenco: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Kelly Macdonald, Kevin McKidd, Robert Carlyle

TRAILER

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