CINEMA: As manifestações políticas é que mereciam o Oscar

A noite era dedicada a premiar os destaques do cinema, mas quem ganhou os holofotes foram os discursos e manifestações políticas. Antes mesmo da noite de gala, o Oscar se viu envolto em polêmicas, sobretudo nas discussões sobre igualdade e diversidade nas produções cinematográficas. Porém, no momento da entrega das estatuetas, o que se viu foi muito além disso: diante de uma audiência global, diversos artistas nos fizeram um convite à reflexão.

Não é a primeira vez que o palco do Oscar é usado para as discussões sociais. Há 43 anos, Marlon Brando ganhava uma estatueta pela sua atuação no icônico “O Poderoso Chefão” – era a segunda vez que recebia o prêmio em sua carreira. O ator, porém, rejeitou a premiação como forma de protesto por maior inclusão e melhor representatividade dos índios norte-americanos na TV e no cinema.

A ativista Sacheen Littlefeather subiu ao palco em nome de Marlon Brando e, na ocasião, iria ler um discurso escrito pelo ator, mas a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood não permitiu que ela falasse por muito tempo, o que impediu a leitura do texto. A carta foi entregue à imprensa e gerou muita polêmica na época. A participação de Sacheen no Oscar pode ser assistida aqui.

Em 2015, os discursos políticos também fizeram parte da premiação. As críticas pela ausência de negros e a pouca presença de mulheres entre os indicados já eram direcionadas à academia. E os atores não deixaram passar a oportunidade de se manifestar. O que se viu foi uma série de discursos em favor da igualdade de direitos para diferentes gêneros, raças e nacionalidades.

O tom político está cada vez mais presente na cerimônia do Oscar. A arte tem poder transformador, mas, no palco, extrapola as telas para ser reverberada na voz daqueles que assumem o papel – na ficção ou num domingo à noite – de, alguma forma, levar as pessoas à reflexão. Não são tiros disparados a esmo, mas críticas bem direcionadas – atingindo, inclusive, a própria indústria cinematográfica que, em inúmeras ocasiões, se mostra preconceituosa, excludente e misógina. As manifestações não pararam em 2015 e, neste ano, ganharam novo fôlego para, novamente, escancarar os nossos problemas sociais.

Igualdade racial

Pelo segundo ano consecutivo nenhum negro foi indicado às principais categorias do Oscar. E não foi por falta de grandes atuações: Michael B. Jordan chamou atenção por seu papel em “Creed”, Will Smith se destacou em “Um Homem Entre Gigantes”, e o filme “Straight Outta Compton – A História do N.W.A” conta com interpretações magistrais de seus diversos atores. Sem contar Idris Elba, que tem belíssima atuação em “Beasts of No Nation”, e acabou sendo relegado da premiação pela Academia – muito provavelmente por seu filme ter sido lançado pela plataforma de streaming Netflix, o que causou desconforto com as salas de cinema.

O fato gerou inúmeras discussões (como relatamos aqui). Até mesmo boicotes à cerimônia aconteceram. Ironicamente o mestre de cerimônias escolhido para 2016 foi o comediante – negro – Chris Rock. E muitos queriam que ele recusasse o convite. Mas ele não protesta assim, pelo contrário, subiu ao palco para arrancar uma série de sorrisos amarelos e desconfortáveis de uma plateia pouco acostumada a receber discursos ácidos que escancaram problemas enraizados e mascarados. O seu monólogo foi explosivo e não poupou ninguém: nem a indústria excludente e nem as formas de protestos vazias.

O comediante lembrou a luta histórica pela igualdade racial, cobrou oportunidades iguais para os profissionais negros e não teve medo de apontar, ali no teatro, os também responsáveis pela falta de diversidade na indústria: diretores, produtores e roteiristas que negam convites a atores de diferentes raças e etnias, assim como desenvolvem papéis caricatos para eles.

E a questão racial não ficou restrita a ótima e importante participação de Chris Rock. Também foi lembrada no discurso de Alejandro Iñàrritu, vencedor pelo segundo ano consecutivo do Oscar como melhor diretor, que pediu o fim da discriminação racial. O mexicano, em 2015, já havia discursado em prol dos imigrantes latinos no EUA.

Mudanças climáticas

Entre os atores que compareceram à cerimônia do Oscar, Leonardo DiCaprio era o mais badalado. A sua atuação em “O Regresso” poderia lhe render a sua primeira, e merecida, estatueta como melhor ator. A vitória era dada como certa, o mundo torcia por ele e os prognósticos acabaram se confirmando. O ator, ao subir ao palco, não se limitou aos agradecimentos e fez um importante alerta: é preciso cuidar do meio ambiente.

As mudanças climáticas, segundo DiCaprio, são um dos principais desafios a serem enfrentados pelo homem. Ele pediu apoio aos líderes comprometidos com essa causa e, mais do que simplesmente alerta, fez uma cobrança pública para que as pessoas prestem mais atenção ao ambiente que as cercam – e que preservem ele.

Quem também defendeu essa bandeira foi Jenny Beavan, ganhadora do Oscar de melhor figurino pelo pós-apocalíptico “Mad Max: Estrada da Fúria”, que utilizou o cenário catastrófico da sua produção para alertar sobre as consequências da poluição.

Igreja e pedofilia

“Spotlight – Segredos Revelados” é um filme que se propõe a tratar esses assuntos. A produção conta a história real de um time de jornalistas investigativos do “Boston Globe” sobre casos de pedofilia na Igreja Católica. E acabou saindo com o Oscar de melhor filme, o que, por si só, dá luz à discussão e coloca, novamente, o clero no centro das discussões sobre pedofilia e abuso sexual.

Mas o produtor executivo do filme, Michael Sugar, discursou cobrando mais atitude da Igreja Católica em apurar as denúncias desses crimes, a penalização dos envolvidos e, sobretudo, uma postura de proteção às crianças.

Abusos sexuais

Lady Gaga concorria ao Oscar de melhor canção original com a música “Til it Happens to You”, que faz parte do documentário “The Hunting Ground”, que trata dos abusos cometidos contra estudantes universitários nos campi norte-americanos. Muitos torciam pela sua vitória, mas não aconteceu – a estatueta ficou com Sam Smith por “Writing’s on the Wall”, que está na trilha sonora de “007 Contra Spectre”.

A cantora apresentou a sua canção durante a cerimônia e a sua performance foi anunciada pelo vice-presidente dos EUA, Joe Biden, que pediu à sociedade para não se calar diante dos casos de abusos sexuais. Foi o prelúdio do que estava por vir. Gaga tocou piano e cantou a sua canção, mas acompanhada de um grupo de vítimas de violência sexual – ela própria também vítima de abusos. Uma apresentação emocionante!

Ditadura, exílio e América Latina

Gabriel Osorio, diretor do desenho “A História de um Urso”, recebeu o Oscar de melhor animação. Neto de um chileno exilado político, o cineasta, em seu discurso, dedicou o prêmio ao seu avô e todas as pessoas que foram exiladas. Uma referência à brutal ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) no Chile, que contou com o apoio dos EUA – principalmente na destituição e morte do então presidente Salvador Allende (entenda melhor aqui).

As declarações de Osorio, porém, passaram despercebidas pela maioria dos meios de comunicação norte-americanos. Será por quê?

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