CINEMA: A ferocidade sonora de “Coração Louco”

Pode parecer estranho dizer que “Coração Louco” (Crazy Heart), filme de 2009 dirigido por Scott Cooper, é feroz. Rodado em apenas 24 dias, com um elenco reduzido e baixo orçamento, o longa conta com um ritmo lento, porém traz uma história intimista e intensa ao mostrar as tentativas de um músico decadente em retomar os rumos da sua vida e carreira sem que necessariamente encontre uma redenção.

Em “Coração Louco”, Jeff Bridges dá vida a Bad Blake, um músico country que já gozou de grande sucesso, mas que convive com a decadência da sua carreira e shows em pequenos bares em cidades espalhadas pelo sul dos EUA. Com chapéu surrado, cinto desfivelado, calça jeans aberta, camisa desgastada e com a manga arregaçada, Blake passa seus dias dirigindo sua velha caminhonete, tocando para pequenas plateias e tomando porres homéricos.

Essa rotina incomoda profundamente Blake, que se reconhece como um artista decadente, mas que não encontra motivação para dar uma nova guinada em sua vida. As coisas começam a mudar quando Jean (Maggie Gyllenhaal), uma repórter de um jornal local de Santa Fé, pede uma entrevista. Com seu jeito meigo, sorriso tímido e encantadores olhos azuis, a jovem jornalista cai nas graças do músico.

O charme e aura de ícone da música country que envolve Blake desperta o interesse de Jean, que se entrega a um romance com um homem 20 anos mais velho. A jornalista possui um filho, que logo passa a conviver com Blake. Mas a vida desregrada, a falta de propósito e o excesso de álcool colocam em xeque a relação do músico e Jean.

O rompimento poderia ser mais uma derrota em uma trajetória que há algum tempo é marcada pelo fracasso, mas Blake se utiliza da dor e do desgosto para extrair algo mais – era a criatividade que há tanto lhe faltava para lançar algo novo. Nesse processo, Tommy Swett (Colin Farrell), antigo pupilo de Blake e grande astro da música country, convida seu antigo mentor – com quem não mantém uma relação muito amigável – para participar de um grande show.

Mais do que dividir um palco, o convite de Swett é uma tentativa de retomar uma parceria. Embora seja dono de grande sucesso, o jovem músico não possui a mesma habilidade de Blake com as composições. E o desejo é juntar o que os dois têm de melhor. O que pode vir a parecer uma redenção é, na verdade, uma oportunidade de retomar as rédeas que há muito tinha se perdido.

Com um roteiro simples, mas extremamente eficiente, “Coração Louco” permite que os atores possam oferecer grandes atuações – e assim o fazem. Jeff Bridges, que é dono de personagens memoráveis, como Rooster Cogburn, de “Bravura Indômita”, e Jeff Lebowski, de “Grande Lebowski”, presenteia o público com uma atuação convincente e única que lhe rendeu o Oscar de melhor ator. Maggie Gyllenhaal também entrega uma atuação de grande brilho que lhe rendeu a indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante.

Além das grandes interpretações, “Coração Louco” também possui uma trilha sonora única e encantadora. E essas músicas são entregues em belas apresentações musicais que são interpretadas pelos próprios atores, Bridges e Farrel. Além disso, a música tema, “The Weary Kind”, venceu o Oscar de melhor canção original. Ao fim do filme, somos impulsionados em colocar essa coletânea de canções no som do carro e sair dirigindo sem rumo certo.

FICHA TÉCNICA

Nome original: Crazy Heart
País de origem: EUA
Ano de lançamento: 2009
Gênero: Drama, Musical
Duração: 111 minutos
Diretores: Scott Cooper
Roteiristas: Scott Cooper, Jeff Bridges
Elenco: Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal, Colin Farrell, Robert Duvall

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