CINEMA: A beleza de “Manchester à Beira Mar”

Viver é experimentar desafios, vitórias e tragédias. Cada pessoa passa por esse ciclo à sua maneira, mas, em muitos casos, é difícil não cair nas diversas situações clichês que nos cercam: a felicidade exacerbada ou o melodrama que, às vezes, nos ajudam a seguir nossos caminhos. Talvez por isso a indústria cinematográfica tenha optado por contar histórias de grande carga emocional, por meio de fórmula padrão – cenas de choro fácil, sequências desesperadas, redenção e pouco espaço para uma reflexão mais profunda. O que acaba resultando nos chamados dramas “água com açúcar”.

Fugir dessa regra parece uma tarefa árdua para os roteiristas, mas não para Kenneth Lonergan, roteirista do surpreendente “Manchester à Beira Mar” (Manchester by the Sea, no original). O escritor possui boa experiência no teatro, o que confere certa habilidade para trabalhar histórias que fujam do senso comum. É o que acontece no longa, que conta com um roteiro cheio de sensibilidade e extremamente intenso.

“Manchester à Beira Mar” é uma história que trata de superação – ou, ao menos a tentativa – e recomeço. Lidar com a dor e as consequências de nossos atos não é fácil, ainda mais quando se trata de uma tragédia pessoal. Como superar? Qual caminho seguir? Como deixei isso acontecer? O que será agora? São perguntas que fazemos quando já é tarde demais. E, geralmente, já é tarde demais.

Levar histórias que refletem essa angústia para a grande tela não é tarefa fácil. Porém, Kenneth Lonergan conseguiu nos apresentar algo único. “Manchester à Beira Mar” nos apresenta Lee Chandler (Casey Affleck, que levou o Oscar de melhor ator pelo seu papel no filme), que trabalha como zelador de prédios em Boston. Certo dia recebe a notícia de que seu irmão, Joe Chandler (Kyle Chandler), faleceu. Ele, então, retorna à sua terra natal para se despedir do seu irmão e cuidar do sobrinho adolescente Patrick (Lucas Hedges).

Ao acionar o advogado da família para lidar com os assuntos deixados pelo irmão, Lee descobre que foi designado como tutor do sobrinho. Nasce aí um dilema: a vontade de cumprir o último desejo do irmão, o anseio por se manter próximo de Patrick e a necessidade de lidar com fantasmas – muitos sombrios – do passado. A trama vai se desenrolando de maneira cronológica, mas utilizando de flashbacks para explicar as razões do dilema vivido por Lee.

Casey Affleck levou merecidamente o Oscar de melhor ator. Sua atuação é vigorosa e transmite toda a angústia de seu personagem – tanto pelos traumas passados quanto os desafios à frente. Lee Chandler é um homem atormentado, reprimido, traumatizado e quebrado pelas consequências de seus atos. Mesmo assim se esforça para buscar soluções, apesar de muitas vezes não saber onde encontrá-las.

Durante todo o filme, o espectador é engolido pelo drama vivido por Lee. É normal se pegar torcendo pela redenção do personagem. Porém, redenção é uma palavra de difícil interpretação e pode conter diversos significados. Inclusive reconhecer a nossa incapacidade de lidar com certos traumas. E nisso reside boa dose de humanidade e força. “Manchester à Beira Mar” nos mostra que existem diversas formas de recomeçar, sobretudo quando reconhecemos nossas fraquezas. Um filme espetacular!

FICHA TÉCNICA

Nome original: Manchester by the Sea
País de origem: EUA
Ano de lançamento: 2016
Gênero: Drama
Duração: 135 minutos
Diretores: Kenneth Lonergan
Roteiristas: Kenneth Lonergan
Elenco: Casey Affleck, Kyle Chandler, Lucas Hedges, Amanda Blattner, Anna Baryshnikov, Bem O’Brien, Dana Nason, Gretchen Mol, Michelle Williams, Tate Donovan

TRAILER

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