Chorando no escuro!

Hoje começo, de fato, minha resenha aqui no Trem das Gerais falando um pouquinho sobre a sétima arte que eu tanto amo. Quando fui escrever esta coluna pensei: que rumo tomar? Indicar uma série de filmes interessantes? Falar sobre vários filmes de um mesmo gênero? Com um mesmo tema? Aí resolvi falar sobre os melhores filmes que vi em toda minha vida. Outro problema: começar por qual?

Após pensar um pouquinho escolhi um que, com certeza, está entre os “top 3”.

“Dançando no Escuro” (Dancer In The Dark), filme do polêmico e ótimo diretor Lars Von Trier, é um musical de arrancar lágrimas, dar nós na garganta e um aperto no peito.

Nunca fui fã de musicais. Sempre achei estranho os personagens cantando diálogos, muitas vezes sem nenhum contexto, apesar de achar interessante alguns como “Moulin Rouge” ou “Sweeney Todd”, além das fantásticas animações que utilizam, aí sim e de forma espetacular, as canções.

“Dançando no Escuro” é diferente. A música é uma parte importantíssima do roteiro, se não a mais importante, te leva pelos caminhos indicados pelo diretor e quase oferece aos espectadores, de bandeja, as sensações existentes em cada momento do filme. Aparecendo sempre como devaneios da protagonista, as músicas te jogam pra cima em momentos de êxtase e posteriormente te deixam cair de cara no chão, trazendo de volta à nossa realidade.

Utilizando muitas vezes os sons das máquinas da fábrica onde trabalha, ou do trem que passa pelos seus caminhos, as canções mostram encaixe milimétrico com as sequências e seu contexto.

Estrelado pela magnífica cantora Björk que, além de compor toda a trilha do filme, tem uma atuação belíssima, natural, digna dos maiores prêmios, o filme conta a história de Selma, uma imigrante Tcheca que mora no interior dos EUA, trabalha em uma fábrica e é adoradora dos musicais americanos, esses que lhe dão todo o repertório pros sonhos que tornam sua vida sofrida um pouco mais leve.

Selma está ficando cega e trabalha duramente para juntar dinheiro para pagar uma cirurgia para o seu filho que sofre com o mesmo problema. Após um desentendimento com seus vizinhos que roubam o seu tão sofrido dinheiro, a vida de Selma desmorona, e nós, meros espectadores, desmoronamos juntos.

Todo filmado com a câmera em punho, Lars consegue nos colocar dentro do filme, e isso traz uma proximidade com a protagonista que nos faz torcer por ela e, por isso, sofrer ainda mais. E haja sofrimento. Lars é cruel, ele eleva os níveis de desconforto e angústia a pontos estratosféricos.

O diretor consegue expor o ser humano de forma crua, sincera e triste. Muitas vezes desagradando os que esperam a reviravolta feliz e iluminada da maioria dos filmes.

Obviamente não vou contar o final desse filme, que poderia ser muito bem uma tragédia grega, mas eu garanto: se você não ficar ao menos um minuto atônito em frente à tela, olhando pro nada sem a mínima reação, enquanto sobem os créditos, procure um médico porque você não é normal (rs)!

Amando ou odiando esse filme, você pode ter certeza ele vai te dar assunto por uma semana nas rodas de amigos.

Grande abraço a todos e corram pras locadoras. Sim, isso ainda existe!

Comentários

André Luiz é publicitário, sócio fundador da Origami Propaganda, músico e um apaixonado pelo cinema. Viciado em páginas de Design e programas de culinária, mesmo sem saber aplicar nada na cozinha. Amante do futebol, tanto no campinho do bairro quanto nos grandes estádios, e das suas companhias: o "tira-gosto" e a cerveja.