Cemitério do Peixe, desvio “assombrado” da Estrada Real

Ninguém falou. Pelo menos não li nem ouvi. Procurei nos arquivos do Instituto Estrada Real e não encontrei. Conferi os diários das Mulheres Caminhantes e não havia sequer sinais. Então, fica a descoberta que vou revelar como um fato inédito. Descoberta que equivale a dizer que um pequeno vilarejo, situado a cerca de 20 quilômetros de Congonhas do Norte, mas dentro do município de Conceição do Mato Dentro, a outros tantos quilômetros, é uma parte da Estrada Real, pelo menos um desvio. Trata-se de Cemitério do Peixe, incógnita para muitos viajantes e seres humanos vivos e mortos.

Também Spix e Martius não passaram por estas bandas, salvo melhor juízo. E nem o francês Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire. Contudo, a Coroa Portuguesa teria encontrado riquezas nas proximidades. Aí, no rio, um tanto quanto caudaloso, é vigiado de perto por uma mulher, que mora com seu filho. Ela, Dona Carlota, tem a incumbência, sustentada por contrato empregatício, de medir diariamente o nível das águas do Peixe. Estive em Cemitério do Peixe várias vezes (na primeira viagem com Sônia Rodrigues, depois com Roneijober Alves de Andrade e Sérgio Mourão e se não me engano também com Afra Regina). A primeira viagem fez Sônia Rodrigues tremer em cima dos sapatos, mesmo não sendo mais possível encontrar assombrações neste misterioso mundo. Essas almas penadas, certamente, eram as mesmas que faziam parte de ideias ficcionistas de Machado de Assis. Para ele, somente à meia-noite se via o incrível, o fantástico e o extraordinário.

A lenda revela do seu jeito que em Cemitério do Peixe afogavam-se escravos no rio. Esses infelizes transportavam riquezas vindas de Diamantina, passando por Datas e Gouveia. Estariam eles entrando num caminho alternativo, não oficial, proibido, a partir de quando deixavam a rota do Serro. Eram interceptados e levados ao castigo pelo plantão das tropas portuguesas: os transportadores tinham o destino inapelável das águas turbulentas, desciam como jangadas ou canoas para o encontro no rio Paraibuna, e se tornavam descartados destas paragens. Diante das centenas de fatos ocorridos, os descendentes tomaram esses cativos como milagreiros e transformaram o local em atração turístico-religiosa. Da paisagem fazem parte 200 casas, todas diminutas, pequenas mesmo, uma capela de São Miguel e um cemitério.

De 11 a 15 de agosto de cada ano as casas se superlotam de devotos, que fazem pedidos às almas, pagam promessas alcançadas, e de curiosos céticos ou não, que observam, anotam, entrevistam, inventam, aumentam, falsificam. E como se falsificam em estórias inacreditáveis, falsificam a si mesmo também, inventam causos sobre o local e até o mundo. Há outros, esses mais raros, que frequentam o lugarejo para pintar, desenhar, meditar, refletir, fazer planos. Até mesmo os eremitas, de vez em quando, aparecem por esse recanto, sabendo que, fora os dias de agosto, Cemitério do Peixe é habitada apenas por Dona Carlota e filho, além de um ou dois casais que procuram distanciar-se do mundo violento que abominam.

Pois é. Está aí um mistério no meio de tantas outras histórias e estórias. As lendas que sustentam a multidão que se aglomera, se mistura, aconchega-se, refugia-se nas caixinhas de fósforos, assim denominados os casebres. Cemitério do Peixe está quase intocável, é só chegar e perguntar para saber e concluir: uma terra assombrada da Estrada Real, uma das respostas que a Coroa Portuguesa dava aos rebeldes ou transgressores de suas leis e normas rigorosas. Hoje os heróis são almas do além.

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.