“BICHO DO MATO”

Estrada Real era o caminho pelo qual passavam as riquezas extraídas em Minas Gerais no rumo da metrópole portuguesa, em lombo de burros ou de escravos. Tratava-se de uma passagem oficial, fiscalizada pela Coroa, na tentativa de evitar o contrabando. De acordo com opiniões colhidas durante as minhas passagens por nada menos que 177 lugares, os que se interessavam pelo tema diziam que, originalmente, a abertura desses caminhos foi feita por índios, mais tarde aproveitada a infraestrutura por transportadores de riquezas.

O Projeto Estrada Real foi formulado em 2001 pelo Instituto Estrada Real, sociedade civil, sem fins lucrativos, criada pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) para objetivos turísticos e de pesquisas históricas. O pano de fundo é o retorno das riquezas que foram levadas pelos portugueses. No período de sua maior utilização, diamante e ouro levados para Lisboa serviram para cobrir gastos exorbitantes na reconstrução de grande parte da capital portuguesa, destruída por um terremoto em 1.755. São quatro os caminhos da Estrada Real: dos Diamantes, Velho, Novo e Sabarabuçu. O meu percurso pessoal foi dos dois primeiros: saí de Diamantina em 18 de novembro de 2004 e cheguei a Paraty em 20 abril de 2006, complementando em Lisboa, no mês seguinte, de 1º a 10 de maio.

Percorri, de carro, microônibus, ônibus e caminhão, mês a mês, dividindo por regiões ou circuitos, até completar a jornada que somou cerca de 1.600 km, tendo visitado 168 cidades mineiras, oito paulistas e uma fluminense. A estratégia foi assim determinada: planejamento, contatos, organização, com algum receptor central para a formação de grupos de estudos e trabalho interessados em colaborar com a revista DeFato de que eu era editor e que publicou as dezenas de capítulos da jornada.

A tarefa para a qual fui designado agora – ocupar linhas ou páginas do Trem das Gerais – resume-se no seguinte: vou contar o que vi, sobre pessoas que ouvi, riquezas e belezas que pude apreciar e as conclusões acerca de cada cidade, distrito ou lugarejo visitados. O que há de belo e nobre que, a meu ver, não pode ser desprezado, mas, pelo contrário, deve ser cuidado com carinho. Em Minas Gerais, o grande destaque da jornada é o patrimônio histórico, com os seus monumentos do barroco e as riquezas imateriais, além de outros valores como a presença de artistas de diferentes atividades.

Vamos, então, começar a narrar os contatos que tive com os atores que me proporcionaram divertida e rica estadia em lugares que jamais esperava conhecer. Foram várias as tentativas que fiz para a grande viagem, depois de criarmos o grupo Ronsarão (Ronei, Sana e Sérgio Mourão, mais tarde também Afra Sana) que, infelizmente, não obteve êxito. A única saída que deu certo foi o trabalho que assumi individualmente, com agenda pré-estabelecida, apoio de prefeituras, câmaras municipais, escolas, imprensa e cidadãos disponíveis. Quer dizer, saía mês a mês, sozinho, de Itabira para me juntar a grupos sempre diferentes em cada região.

Muitas surpresas, sustos, brincadeiras, “contação” de histórias e estórias, grandes festejos, improvisações musicais e teatrais e, no final, pude concluir com um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC/graduação em História), depois artigos de pós-graduação, em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural. Vamos que vamos! “Devagar se vai ao longe, devagar eu chego lá”, como canta Jorge Ben Jor em “Bicho do Mato.”

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.