Aqui Córregos, encanto das mulheres caminhantes

Tão fácil é perceber que o distrito conceicionense de Córregos se transformou na menina dos olhos das caminhantes da Estrada Real. São essas mulheres personagens principais que sustentam a historicidade do trajeto. Foram elas umas das descobridoras das incontáveis riquezas que estão encravadas nos Caminhos dos Diamantes, Novo e Velho. De Tapera, ou Santo Antônio do Norte, que acabamos de visitar, a esse notável lugar, são simplesmente 12 quilômetros íngremes e quase intransponíveis. Quando fizemos a jornada, a pequena mas difícil viagem foi feita de jipe com tração nas quatro rodas. Hoje pode ser considerada uma grande melhora nesse aspecto a manutenção empreendida na dúzia de quilômetros que separam as vilas.

Que sorte! Encontro em Córregos o Padre Manoel Godoy, auxiliar direto do então arcebispo da Paraíba, Dom José Maria Pires, com quem falei também, mas algum tempo depois. Dom José, por ser filho de Córregos, que na sua história soma 23 padres nascidos no local, permitiu que Manoel Godoy permanecesse na região, em que dava ajuda também às fábricas de polpa de frutas denominada Vinocor, e de farinha de mandioca, iniciativas do arcebispo. O padre, entusiasmado, narrou as festas religiosas realizadas na região, bem como o revestimento delas pela cultura dos tempos da missa celebrada em latim.

Depois de alimentar os nossos arquivos de informações valiosas, o ilustre sacerdote nos encaminhou a vários moradores que não só amam o lugar como lutam para valorizá-lo cada vez mais. Assim, fomos (a essa altura contava eu com vários companheiros de viagem) conhecer detalhes curiosos e muitas narrativas cheias de esperança. O que cada morador pensa é que o trabalho do Instituto Estrada Real, encarregado de gerenciar as expedições mais importantes, consiga a reposição das riquezas, que foram transportadas para Portugal em ouro e diamante, agora retornem pelo turismo bem estruturado.

As igrejas de Córregos são notáveis: a Matriz de Nossa Senhora Aparecida, construção do século 18 e a Capela do Senhor dos Passos, um século mais velha, têm de tudo para sintetizar a história do lugar. Quando de uma de minhas dezenas de passagens pelo local, oficializei a de meados de janeiro de 2005, quando havia ocorrido um pequeno incidente. O assoalho de braúna que cobria o piso da ermida da Matriz teve um incêndio por causa da falta de ar no local. Foi necessário arrancar todo o piso e transportar a ossada que lá estava para o cemitério do distrito. Conclusão: houve a necessidade de um ritual religioso. Novamente, Córregos chamou a atenção de toda a região, até mesmo do tema abordado por todo o Brasil, a Estrada Real.

Por causa da peculiaridade local, como afirmei, estive várias vezes acompanhando os acontecimentos em Córregos, distante da sede, Conceição, apenas 23 quilômetros. Houve um encontro histórico na Igreja Matriz com dezenas de mulheres caminhantes da Estrada Real e de uma caravana portuguesa que veio ao Brasil para conhecer o trajeto protegido pela Coroa Portuguesa e mantido sob vigilância para o transporte de ouro e diamante. Com tal ocorrência ninguém se assustou: o povo de Córregos conseguiu reviver, com a descoberta da ossada, os casos e causos de assombrações que azucrinavam a vida dele. E tentou, desta vez com coragem, que as almas do outro mundo voltassem para contar mais histórias, já que importante para todos os viajantes são, principalmente, as lendas, misteriosas e emocionantes.

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.