A lama que vem das montanhas

As manhãs no interior de Minas Gerais são inconfundíveis. Os raios de sol dividem espaço com os aromas que saem dos fornos, sejam eles à lenha ou a gás, e que anunciam o café fresquinho ou mais uma fornada de broa. Para, ali na mesa, se misturarem com o sabor inconfundível do queijo. Um bom dia para aqueles que pulam cedo da cama para seguir para as suas horas de labuta, sempre tão pesadas nessas cidadezinhas espalhadas pelas Gerais.

E tem de tudo: quem calça as botinas e pega a enxada, quem amarra a touca nos cabelos e separa os temperos do almoço, quem junta a luva e o capacete para preparar a laje, quem debaixo do sol não teme o calor do ferro na roupa, quem abotoa a camisa e se senta na frente do volante. E mais: homens e mulheres que partem para escritórios e lojas, que levam os filhos para a escola. Mais um dia pela frente.

Dá manhã vem o horário do almoço. Frango com quiabo, feijão tropeiro, arroz com alho, couve refogada, tutu com ovo, lombo ou carne de panela. Difícil determinar o que cai na panela de tantas pessoas, mas se a imaginação trabalha não tem como deixar de lado pratos típicos da culinária mineira. E são muitas as opções que deixam o cardápio tão vasto quanto às montanhas e os sabores que essas Minas nos dão.

Sabores esses que foram amargos para os moradores de Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana. Que numa tarde de quinta-feira viram rolar das montanhas uma enxurrada de lama que devastou toda a cidade. Uma ação que está bem longe de ser natural. Mas, sim, resultado do extrativismo predatório do ser humano que escava montanhas e solos produzindo toneladas de rejeitos – que, hoje, cobrem Bento Rodrigues.

Os resultados da tragédia ocorrida no dia 5 de novembro já vão além da divisa do pequeno distrito. Para trás o “mar de lama” deixou casas soterradas, bens destruídos, corpos e pessoas desaparecidas. À frente inspira temor e preocupação naqueles que irão ver os destroços carregados pela lama passar pelas suas cidades – que não serão poucas em um trajeto que vai até o Espírito Santo.

Além da destruição, as explicações também serão consequência do rompimento das duas barragens em Mariana. Governos, órgãos de fiscalização e regulação e, claro, as empresas envolvidas vão vir a público se posicionar e se defender. Chegarão ao ponto de se mostrar consternadas – o que é muito fácil depois que todo o estrago foi feito. Independente do que for falado, nada apagará o fato de que a tragédia é resultado da imprudência, incompetência e negligência da Samarco, empresa responsável por aquela extração mineral e que tem por trás gigantes como a Vale e a anglo-australiana BHP Billiton.

É estranho – e de algum modo irônico – que no momento em que escrevo essas palavras vejo pela minha janela o resultado do extrativismo mineral. Até então destacado como paisagem comum. Mas quando nos deparamos com tragédias como a ocorrida neste novembro de 2015, devemos parar e fazer algumas reflexões. A “maré de rejeito” choca muito e ninguém passa indiferente a uma cena dessas.

Mas diante dos impactos causados pela mineração, essa indignação deveria vir antes. Ou ao menos alguma preocupação. Afinal, todo mundo sabe quais as consequências de todo esse extrativismo mineral – e tudo aquilo que pode ocorrer em caso de falha ou negligência em alguma etapa da cadeia produtiva. Como ficou bem claro agora. De imediato, a tragédia de Bento Rodrigues ligou o alerta para a condição das outras barragens de rejeito espalhadas por aí.

Quem tem alguma delas como vizinho não deixará de perguntar: ela pode romper? Em que estado se encontra? Posso confiar? Mas não são apenas essas perguntas que devem ser feitas. A mineração tem a sua relevância econômica, mas também é responsável por grande estrago ambiental – com consequências diretas para a fauna e a flora. Não podemos esquecer que também causam problemas de saúde, como os respiratórios, que são bem comuns em cidades que são próximas de alguma mina.

A própria questão econômica tem o seu lado negativo. Não de imediato, é claro, mas em longo prazo. Cidades acabam se tornando dependentes dessa atividade, mas, tão logo o extrativismo chegue ao fim, elas se veem abandonadas. Recursos naturais e mão de obra exauridos. Pois a reflexão sobre o que o futuro nos aguarda só vem tardiamente.

Tão tardiamente que a própria água dessas cidades é entregue às mineradoras. Seja para usar em alguma etapa de produção, na lavagem do minério ou para sustentar os minerodutos. Em contrapartida, diversos municípios convivem com o racionamento e até mesmo falta da água. Porém, a atividade minerária segue normalmente.

Tudo isso é validado por prefeituras e governos estaduais. Órgãos públicos ambientais e de fiscalização também têm a sua parcela de participação, afinal, são eles que concedem todas as autorizações, como as licenças de operação e outorgas, para que tudo listado acima aconteça do jeito que acontece. E quando acontece uma tragédia como a de Bento Rodrigues, devem ser lembrados da sua parcela de responsabilidade.

É por isso que devemos refletir profundamente sobre o ocorrido no subdistrito de Mariana. E precisamos fazer isso rápido, pois o Congresso vem discutindo o Marco Regulatório da Mineração. E é nele que devemos cobrar regras que imputem mais responsabilidade e respeito das mineradoras para com a população e o meio ambiente para evitar mais tragédias. E isso precisa ser feito agora, pois, como sabemos, muitos congressistas agem financiados por essas grandes empresas. E eles irão agir de acordo com os interesses delas.

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