A França é aqui, mas sem a Torre Eiffel

Minas Gerais é a França brasileira. Calma, eu explico. Quem é da área sabe que a França é o berço da gastronomia mundial, de lá saíram as bases da culinária que utilizamos hoje. Os chefes mais renomados são franceses. Uma das maiores escolas de gastronomia fica em Paris, a Le Cordon Bleu. A gastronomia francesa é referência mundial pelas suas técnicas e riqueza de elementos.

Quando eu digo que “somos a França brasileira”, refiro-me à quantidade de insumos e toda carga cultural atrelada a eles. Minas é um estado extremamente rico e a sua diversidade, com regiões tão distintas e repletas de singularidades, transforma sua gastronomia numa das maiores riquezas do país e do mundo. Sim, do mundo. Minas Gerais foi escolhido em 2013 para representar o Brasil no maior evento de gastronomia mundial, o Madrid Fusion, que sempre escolhe um país para ser tema e, dessa vez, escolheu um estado, o nosso. Minas foi escolhido por ser o estado brasileiro que mais trabalha pela cultura gastronômica, tanto que o Festival Gastronômico de Tiradentes tem hoje reconhecimento mundial. Diversos cozinheiros e chefs buscam aqui ingredientes e inspirações culturais para compor seus cardápios.

Eu sempre acrescento a hospitalidade e o jeitinho mineiro a esse sucesso culinário. A cultura de convidar uma pessoa pra tomar um “cafezin” que sempre vem acompanhado de um “quejin”, um “pãozin de queijo” ou uma broa de fubá. O hábito de se reunir à mesa para os almoços de família e até mesmo a nossa paixão pelos botecos e seus tira gostos deliciosos.

As lembranças culinárias da infância me invadem sempre que falo sobre isso. A família reunida no terreiro, minha vó à beira do fogão a lenha mexendo tachos de doces, separando o tutano do pé do boi que depois viraria um delicioso caldo de mocotó. Os almoços de domingo que começavam a ser preparados quando meu pai chegava ainda no sábado à tarde para abater as galinhas caipiras trazidas da roça.

Lembro-me das férias na roça quando a diversão não era subir no pé de manga, mas madrugar para ordenhar as vacas e esperar impacientemente com a colher nas mãos o tacho do requeijão ser liberado para podermos nos deliciar com as raspas; ainda sinto o gostinho da fumaça.

Prometo que um dia eu conto aqui as histórias dos doces e dos dias ajudando a limpar porco e fazer linguiça.

São muitas lembranças atreladas ao universo gastronômico que nosso Estado possui. O queijo que virou patrimônio cultural imaterial brasileiro, os doces, o pão de queijo e o café, marcas registradas do nosso povo. Eu me envaideço quando converso com cozinheiros de outros lugares que não economizam nos elogios ou quando leio que renomados chefes utilizam insumos tradicionalmente mineiros em seus cardápios cheios de glamour e muitas vezes estelares, como Roberta Sudbrack e Alex Atala, que ostentam Estrelas Michelin* em seus cardápios.

*O Guia Michelin é a publicação mais respeitada do mundo da gastronomia e premia os restaurantes e seus chefs com estrelas em uma escala de 1 a 3.

Eu carrego com orgulho a bandeira de Minas no meu dolmã (o uniforme que usamos na cozinha, também conhecido como Gambuza) e abro o sorriso mais mineiro possível quando alguém vem conversar sobre a culinária do estado e ouço alguém dizer que visitou alguma cidade mineira e se apaixonou pelo frango com quiabo e pelo “dodileite com quejin fresquin”.

Minas é um estado rico em diversos aspectos e na gastronomia não poderia ser diferente. É a França com mais aconchego e um cheirinho de café fresco com broa de milho.

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Kamila Duarte de Jesus ou simplesmente Nêga, como é chamada pela família e pelos amigos, traz a paixão pelas panelas no DNA. Bisneta de Raimundo Cozinheiro - cozinheiro dos ingleses que vieram para Itabira junto com a Companhia Vale do Rio Doce -, aprendeu a cozinhar ainda criança quando usava um mini fogão a lenha para preparar guisados e batatas para suas bonecas. Formou-se em Publicidade e Propaganda pelo Centro Universitário Newton Paiva por ouvir de todos que era muito criativa. A paixão pela gastronomia passou de brincadeira de criança a assunto de adulto e já atuando profissionalmente na área se formou em Cozinha Profissional pelo Senac – MG em 2014. Acredita que um bom prato de sopa até cura, que doce é um carinho na alma e que cozinhar é uma maneira de demonstrar amor ao próximo.