POLÍTICA: A realidade que parece saltar de uma página de ficção

O ano de 2015 parece transcorrer nos palcos de algum teatro. Mas, claro, nada muito comum – e sim um texto com um enredo digno do teatro do absurdo. E mesmo com o passar dos meses parece que seguimos presos dentro de uma rede de fatos ilógicos e de uma série de desatinos. E, assim como toda boa peça teatral, à medida que a história vai chegando ao final nós vamos atingindo o seu clímax.

Podemos tecer uma série de teorias sobre os acontecimentos que passamos a vivenciar ainda mais intensamente ao longo deste ano. Mas, de uma maneira simplista, eu prefiro acreditar que todo esse absurdo sempre esteve solto por aí. Só que agora existe a Internet, existe as redes sociais, existe os smartphones e tablets e também existe a livre circulação de informações e opiniões. Claro que desse movimento muitas coisas boas emergem, assim como surgem diversas outras coisas que, com certeza, iríamos preferir não ter contato. O que hoje em dia ficou meio impossível.

Tanto que o filósofo e escritor italiano Humberto Eco proclamou: “o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. E temo que isso seja verdade. Afinal, passamos a lidar com o mais variados tipos de pensamentos e opiniões – o que de modo geral é bastante positivo. Mas quando vemos o reforço de preconceitos, a propagação de movimentos discriminatórios, a certeza da impunidade, a falta de apreço pela ética, a doutrinação da violência e do ódio e tantas outras coisas, é de bater um desespero tremendo. Daqueles de querer se esconder embaixo da cama.

Se eu fosse fazer uma retrospectiva de tudo o que aconteceu por aí em 2015 eu iria precisar de mais espaço do que disponho aqui nesta coluna. E também iria me deprimir um bocado, o que certamente eu não quero neste mês, já basta tudo o que vem acontecendo. Porém, não poderíamos deixar de citar os acontecimentos mais recentes e que de alguma forma traduzem muito bem o momento pelo qual o país tem passado.

O drama dos estudantes paulistas tem estampado as manchetes há algum tempo. A reivindicação é simples: não fechem as escolas. Tudo, exatamente tudo, o que acontece no Brasil acaba, de uma forma ou de outra, sendo ligado à falta de educação. E, de repente, parece ser lógico o fechamento de escolas – e ainda distribuir sopapos em alunos e professores que são contrários a essa medida. Pensamento lógico, meu camarada.

Aliás, a postura do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), é ao menos coerente. Já provou, em diversas ocasiões, que o diálogo com ele se dá na base do “tiro, porrada e bomba”. O que parece ser também alguma cartilha tucana ao lidar com manifestações, afinal, não foi um Beto Richa (PSDB), lá no Paraná, que mostrou na prática que educação se discute é na porrada.

E neste país ninguém entende mais de agressão do que o pobre. Como se não bastasse todas as violências com as quais precisam lidar cotidianamente, ainda precisam tomar bastante cuidado ao sair de suas casas. E não estou falando de olhar para os dois lados antes de atravessar uma rua. Mas sim do policial que atira antes de perguntar – ou em alguns casos metralham – e, diante de um erro crasso, tentam forjar, pois “ninguém liga para aqueles mortos”.

Parece que é somente nesses casos brutais que os moradores da periferia merecem destaque nos jornais. A não ser naqueles programas de auditório dos sábados à tarde em que pelejam por algum prêmio ou sobem num palco para soltar a voz – uma pequena dose de espetáculo para simular que a eles é dada alguma importância. O que resta saber é se mais essa chacina contra cinco jovens negros que ocorreu no Rio de Janeiro permanecerá impune, como tantas outras que acontecem diariamente. E, sim, muitas vezes são cometidas pelos nossos policiais. E, sim, isso precisa ser destacado – ninguém é a personificação da lei e muito menos está acima dela para que possa agir como bem entender.

E, claro, não poderia encerrar este artigo sem mencionar a troca-troca de impeachments. Eduardo Cunha (PMDB-RJ) já foi mencionado algumas vezes nesta coluna (aqui e aqui). Para ele os motivos para um impeachment são bem claros – contas no exterior, recursos mal explicados, a Procuradoria Geral que pede mais de 100 anos de prisão pra ele e por aí vai. Sem contar o seu posicionamento como parlamentar e a série de projetos retrógrados – mas por mais questionáveis que sejam essas ações, elas, por si só, não rendem um movimento de cassação, mas nos levam a refletir sobre a importância do voto.

Já em relação à presidente Dilma Rousseff (PT), não existem ações concretas que, em minha opinião, balizem o pedido do seu impeachment. A não ser uma série de descontentes com a sua eleição e como tem conduzido o seu mandato. Mas nada que justifique uma ação desse tipo. Porém, essas são questões de opiniões particulares que aqui exponho para chegar a um simples ponto.

Houve uma série de aplausos quando Cunha decidiu acatar um pedido de impeachment contra Rousseff. Ora, pode estar indignado o tanto que for com a presidente, mas nada neste mundo justificará o aplauso a um corrupto de moral bastante questionável. Aliás, nunca vi chantagem ser motivo de comemoração. E, aliás, novamente, chantagem é crime. E chantagem é a palavra que descreve perfeitamente o movimento feito pelo peemedebista. Receio dizer que aqueles que hoje celebram o Eduardo Cunha estão se colocando no mesmo patamar que ele – e sobre isso é necessário refletir.

Só espero que, quando este 2015 chegar ao seu fim, eu me veja sentado na poltrona de um teatro. E quando as cortinas se fecharem e as luzes se acenderem, eu possa levantar e aplaudir uma peça teatral das mais extraordinárias. Ou, sinceramente, o teatro de absurdo já não terá mais sentido, pois nenhuma obra ficcional pode se comparar aos desatinos que formam a realidade deste país.

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.