UmA Onda de reflexão

O que torna a arte interessante é a sua capacidade de instigar as pessoas a refletirem e a pensar. O mundo que as cerca, as relações interpessoais, aspirações de vida… e por aí vai. Tira a nossa cabeça da inércia e a coloca para trabalhar. E isso não seria possível se a arte também não ousasse em tocar temas sensíveis a uma comunidade, incluindo aqueles considerados tabus. Um processo essencial para o nosso desenvolvimento pessoal e coletivo.

Há algum tempo assisti a um desses filmes que nos jogam em um mundo de pensamentos. E que insistentemente ficam em nossa cabeça. “A Onda”, ou, no nome original, “Die Welle”, do diretor Dennis Gansel, é daqueles filmes que impressionam e chocam. É direto em sua mensagem e não procura poupar o espectador, que no caso diz respeito à facilidade que uma comunidade tem em se entregar a ideais nazifascistas.

O filme tem o mérito de propor essa discussão em local sensível a esse assunto: a Alemanha. Porém, sem ter que restringir as reflexões a limites territoriais. O que ali é discutido serve como uma reflexão global e que diz muito sobre o comportamento humano. E a nossa capacidade de abrirmos mão da individualidade e do senso crítico em prol de um posicionamento coletivo, mesmo se esses princípios se mostrarem escusos ou errados, bastando o uso das ferramentas corretas.

“A Onda” conta a história do professor Rainer Wenger que se vê na obrigação de ensinar os seus alunos sobre os regimes autocráticos. Para ganhar a atenção dos estudantes, Wenger propõe um experimento para explicar a questão na prática. Logo, ele se intitula o líder de um movimento chamado “A Onda” e adota para o grupo o lema “força pela disciplina”. Os alunos passam a usar um uniforme que os identifica como membros d’A Onda, utilizam cumprimentos específicos, são disciplinados e passam a acreditar na superioridade do grupo sobre os demais.

Aos poucos os estudantes vão incorporando aquela rotina no seu dia a dia. Passam a rejeitar quem não faz parte d’A Onda e a ameaçar essas pessoas. A diferença do pensamento passa a ser condenada. Esse ambiente acaba sendo transposto pelos alunos para fora da sala de aula. Quando Wenger percebe que o experimento está indo longe demais e decide por fim em tudo já é tarde e as coisas saíram do controle. O filme é baseado na história real de Ron Jones, professor de história da Escola Secundária Cubberly, de Palo Alto, Califórnia, que propôs o experimento aos seus alunos em 1967 – com resultado tão espantoso quanto o do filme.

O caso gera inúmeras reflexões em diversas áreas. Desde a facilidade dos jovens em se deixarem ser influenciados por correntes de pensamento, inclusive por ideais fascistas, durante o seu processo de amadurecimento, passando pelo papel e a influência da escola e dos professores no processo de aprendizagem, até a percepção de que certos pressupostos de “comunidade” e “disciplina” podem ganhar a simpatia popular quando defendidos por um líder carismático e transmitidos como um conjunto de ideais políticos. Mesmo depois de diversas experiências e as terríveis consequências de governos autocráticos na história mundial.

Num momento em que assistimos ao crescimento de grupos religiosos, inclusive com o aumento da sua participação dentro dos círculos políticos, e a tentativa de impor suas crenças em detrimento da liberdade individual de escolha; em que certos grupos sociais, chamados de minorias, veem a sua luta por direito e igualdade minimizada e passam a conviver com limitações de seus direitos e risco constante de agressões; em que a segregação por raça e gênero continua em alta na sociedade; em que o retorno da Ditadura Militar é gritado; em que o pensamento político seja polarizado em crenças limitadas e limítrofes – afinal, parece que um não pode existir sem o outro –; o filme “A Onda” aparece como excelente material de reflexão.

Em todos esses casos aparecem os seus líderes, sejam eles travestidos de religiosos, políticos ou falsos ativistas, que conseguem disseminar entre os seus seguidores um conjunto de ideias que são defendidas cegamente. E ai de quem pensar o contrário. As liberdades individuais são deixadas de lado, a autonomia de pensamento e o discernimento crítico são abandonados e o respeito esquecido.

O resultado é percebido no ódio que é disseminado pelas ruas contra quem pensa e age diferente, a raiva bradada nas redes sociais sob a sombra de um pseudo anonimato, na crueldade dos grupos de justiceiros que se julgam no direito a agredir e até mesmo matar quem eles julgarem culpados e em outros tantos casos que já fazem parte do nosso cotidiano. Resta saber se iremos decidir acabar com isso quando for tarde demais – ou não.

Assistam ao filme, reflitam e tirem as suas próprias conclusões. Para os interessados seguem alguns detalhes sobre essa produção:

FICHA TÉCNICA DO FILME:
Título: A Onda
Título original: Die Welle
País: Alemanha
Direção: Dennis Gansel
Roteiro: Dennis Gansel e Peter Thorwarth
Produção: Anita Schneider, Christian Becker e Nina Maag
Língua: Alemão
Ano: 2008
Elenco principal: Jurgen Vogel (Rainer Wenger), Max Riemelt (Marco), Maximilian Mauff (Kevin), Christiane Paul (Anke Wenger), Jennifer Ulrich (Karo), Maximilian Vollmar (Bomber), Frederick Lau (Tim), Cristina do Rego (Lisa) e Elyas M’Barek (Sinan)

TRAILER DO FILME:

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.