21 dias sem carne

A alimentação e os hábitos alimentares estão ligados à cultura em que estamos inseridos e diz muito do nosso estilo de vida também.

No domingo, eu recebi um e-mail de uma amiga me convidando a participar do “Desafio 21 Dias Sem Carne”. O projeto é uma parceria da Sociedade Brasileira Vegetariana, a SBV, e da Veggo! que tem como objetivo mostrar às pessoas que é possível, e não é difícil, adotar uma dieta sem carne e até sem nenhum produto de origem animal. Você se cadastra no site e recebe, via e-mail, dicas de especialistas como nutricionistas, e ainda acompanha pelas redes sociais todo o projeto, receitas sem carne e dados estatísticos.

Porque eu aceitei participar? Justamente por causa do que eu escrevi na introdução do texto. A gastronomia é permeada pela cultura e hábitos dos povos. Na Índia, por exemplo, não se come carne de vaca, os mulçumanos não comem carne de porco, na China se come carne de cachorro e outros animais que nós, brasileiros, consideramos inaceitáveis na nossa alimentação.

Quando eu estava no primeiro ano da faculdade de publicidade resolvi ficar sem comer carne. Eu era uma ovolactovegetariana – não comia qualquer tipo de carne, mas comia laticínios e ovos. Na época eu estava em uma fase totalmente diferente da minha vida, era uma questão voltada pela proteção animal e pela qualidade e melhoria de vida. E sim, funcionou! Eu não estou levantando nenhuma bandeira, apenas compartilhando minha experiência com vocês. No meu caso, eu vi que meu organismo reagiu muito melhor sem carne, o sono e a disposição eram melhores também.

Eu cresci em um meio em que a carne é muito presente. O tradicional frango de domingo e os constantes churrascos em família fizeram com que eu não levasse adiante esse hábito vegetariano, mas abriu meus olhos para outras possibilidades. E, mais tarde, quando entrei para a área da gastronomia, me ajudou também a ver, de maneira mais clara, que a indústria da carne é cheia de falhas. Passei também a ter mais consciência e respeito pelos alimentos que consumimos.

Tá, mas e daí?! Isto é uma coluna de gastronomia, achei que eu ia encontrar uma receita de pudim de pão pra sobremesa. (Sim, mais pra frente eu colocarei algumas receitas pra vocês aqui).

E aí que o número de pessoas preocupadas com o planeta, com os animais e com o próprio corpo tem crescido. E o número de adeptos da alimentação sem carne e derivados de animais também, abrindo novas portas para o mercado gastronômico.

O IBOPE fez uma pesquisa em 2012 e naquela época 8% dos brasileiros, mais de 15 milhões de pessoas, declaravam-se vegetarianas. E a lei de oferta e procura não é diferente nesse caso. O crescente número de restaurantes vegetarianos, lanchonetes, departamentos de supermercados dedicados a este segmento, buffets e Chefs especializados em comidas vegetarianas e veganas nos mostram um novo nicho de mercado se abrindo. Novas oportunidades de trabalho e os cursos ofertados especialmente para esse setor corroboram os dados expostos em várias pesquisas e reportagens.

Hoje, a grade maioria dos estabelecimentos possui em seu cardápio opções de refeições sem proteína animal, por exemplo. Já não é tão difícil encontrar restaurantes vegetarianos em cidades de médio porte, alimentos orgânicos também tem ganhado destaque, assim como produtos sem lactose.

O fato é que esse mercado movimenta muito dinheiro e abre portas para outras vertentes gastronômicas, o que é muito bom. Já que eu sempre falo pra vocês que comida é cultura, que cultura é poder e poder também é dinheiro, que é o que move nossa sociedade capitalista.

Eu acho muito válida qualquer iniciativa que nos dê novas oportunidades, que nos ensine mais sobre o que consumimos e, por isso, aceitei esse desafio. Mais para frente eu conto pra vocês como tem sido. Hoje eu posso adiantar que podemos, sim, comer bem sem carne.

A imagem do meu jantar de hoje é prova disso:

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Kamila Duarte de Jesus ou simplesmente Nêga, como é chamada pela família e pelos amigos, traz a paixão pelas panelas no DNA. Bisneta de Raimundo Cozinheiro - cozinheiro dos ingleses que vieram para Itabira junto com a Companhia Vale do Rio Doce -, aprendeu a cozinhar ainda criança quando usava um mini fogão a lenha para preparar guisados e batatas para suas bonecas. Formou-se em Publicidade e Propaganda pelo Centro Universitário Newton Paiva por ouvir de todos que era muito criativa. A paixão pela gastronomia passou de brincadeira de criança a assunto de adulto e já atuando profissionalmente na área se formou em Cozinha Profissional pelo Senac – MG em 2014. Acredita que um bom prato de sopa até cura, que doce é um carinho na alma e que cozinhar é uma maneira de demonstrar amor ao próximo.